A eletrificação da linha de Angra
Délio Araújo — Centro-Oeste DC-20 — 30-Out-1991
O primeiro trecho da EF Oeste de Minas (EFOM) a ser eletrificado
estendia-se de Barra Mansa, RJ, a Augusto Pestana, MG, somando 81 km.
No entanto, o trecho mais pesado é o que tem início na travessia do rio
Preto, divisa RJ - MG, até Augusto Pestana. São 32 km, com mais de 700
m de desnível. As rampas chegam, em certos pontos, a 4%; as curvas baixam
o raio para 100 m.
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Em 1921, foram iniciados os estudos de viabilidade. Concluídos
em 1922, afirmavam que a eletrificação era econômica e indispensável.
Em 1926, The Metropolitan Vickers, ganhadora da concorrência, assinou
o contrato.
A energia seria gerada em usina hidrelétrica própria, a corrente
seria contínua, de 1,5 mil Volts, e os postes, de aroeira do sertão.
A inauguração deu-se em 1928, com resultados operacionais surpreendentes.
As novas locomotivas, 5 elétricas, substituíram 12 locomotivas
a vapor, segundo me afirmou, em dez/1967, Pedro Marcos de Abreu
Leite, na 1ª Residência. As economias de combustível — mais do que
favoráveis —, além da facilidade de operação e o desempenho das
elétricas, depunham virtualmente contra a tração a vapor.
No entanto, estes resultados não foram obtidos de acordo com uma
satisfatória contabilidade de custos.
Não nego, em absoluto, a superioridade da tração elétrica. Mas
as vaporosas, ao que ouvi, continuaram a manobrar em Barra Mansa;
os trens de lastro eram freqüentemente operados a vapor; as vaporosas
até colocavam as elétricas em desvios e na linha principal, pois
nem todos os desvios e linhas tinham rede aérea. Logo, as próprias
elétricas — que ficavam com o serviço nobre, de linha — eram manobradas
por vaporosas.
E as elétricas eram mais pesadas (peso aderente) e mais novas,
enquanto as vaporosas nem eram bem conservadas.
Ainda em 1967, ouvi dizer, em Lavras e Barra mansa, que a EFOM
teria acertado mais se houvesse adquirido 5 Garrat 1-8-0+0-8-1,
ou mesmo Mallet de rodado 1-8-8-1. Rebocariam a mesma carga, talvez
com menos patinagem de rodas, nas úmidas gargantas da Mantiqueira,
e não teriam de ser manobradas pelas vaporosas mais antigas.
Depois, a Rede Mineira de Viação (RMV), sucessora da EFOM, eletrificou
o trecho Carlos Prates - Divinópolis, MG. Ocorreu o mesmo: As vaporosas
manobravam, encostavam as elétricas, faziam todo o serviço servil,
e os resultados eram comparados sem base em contabilidade de custos.
Acredito que a contabilidade de custos é essencial pois, lá por
1965, em Chicago, um executivo da defunta Milwaukee me falou que
nem compensaria recuperar a eletrificação das montanhas Rochosas
e das Cascades, se a análise comparada se baseasse em contabilidade
de custos.
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Formado em Economia de Transportes pela Northwestern University, em Evanston,
ele generalizava dizendo que a eletrificação tem duas vias permanentes:
a via de rodagem e a via de alimentação. E os custos da segunda, e de
seu retorno, quase nunca são bem analisados.
Depois, a RMV foi mais além. A eletrificação se estendeu de Arantina
a Ribeirão Vermelho, em 3 mil Volts. O trecho Barra Mansa - Arantina,
em 1,5 mil Volts, passou a representar um gargalo. Já na década de 60,
as diesel-elétricas assumiram a serra.
Houve outro erro de previsão: Com base na economia de combustível, inclusive
lenha, a eletrificação foi estendida de Barra Mansa a Lídice. Em 1967,
nem a rede elétrica existia mais! A sub-estação de Lídice estava sendo
guardada por um vigia, e nada mais restava, nem mesmo o posteamento da
rede aérea.
Em 1967, o trecho Barra Mansa - Arantina era operado só por diesel. Uma
única elétrica ainda fazia, ocasionalmente, algum serviço. A manobra para
Volta Redonda ainda era das vaporosas 2-8-0: No dia 14-jan-1968, a vaporosa
n° 438 levou um trem de 47 vagões, pesando 2.687 toneladas, sem derrapar.
Combustível? Era óleo.
O chefe do depósito me afirmou, peremptoriamente, que nenhuma elétrica
faria isso! Nenhuma das elétricas da VFCO da época, claro. E de Arantina
a Ribeirão Vermelho, as diesel faziam tudo, menos o trem de passageiros,
que era rebocado por um carro motor elétrico.
Assim, a eletrificação morreu por ataque das diesel e das vaporosas convertidas
para óleo. Principalmente por ataque das diesel, é evidente.
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Peço que não considerem o que estou escrevendo como se fosse uma
história dos trechos eletrificados da EFOM, da RMV, da VFCO, nem
da SR-2. Escrevo o que ouvi e verifiquei pessoalmente.
Angra dos Reis
Voltando ao trecho Angra dos Reis - Barra Mansa, já referi que
a eletrificação cobriu 62 km entre Barra Mansa e Lídice..
Interessante será notar que a eletrificação teve início em 1933,
e logo foi paralisada por falta de recursos. Foi retomada em 1937
e, pouco depois, novamente interrompida.
Lá pelo início dos anos 50 — não lembro se foi em 1951, 52 ou 53
—, vi em Barra Mansa algum material e equipamentos recentes, adquiridos
para as linhas de transmissão e de contato. Também ouvi que a RMV
estava construindo uma usina hidrelétrica no rio do Braço, afluente
do Piraí, em um local denominado Oito Arrobas.
O trecho seria eletrificado em 1,5 mil Volts, emendando em Barra
Mansa com o trecho até Minduri.
É de chamar atenção que a seção Minduri - Arantina sobreviveu à
morte da seção Arantina - Augusto Pestana - Barra Mansa - Lídice,
por estar integrada à seção Minduri - Ribeirão Vermelho.
Portanto, foi efêmera a vida do trecho Lídice - Barra Mansa, muito
embora fosse ambição da RMV levar a rede elétrica até Angra dos
Reis. Em Minas Gerais, a RMV chegou a cogitar de levar a eletrificação
de Ribeirão Vermelho a Garças de Minas.
No bojo de tantas cogitações, por qual motivo a seção Angra - Lídice
jamais saiu do papel?
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Primeiro, por causa dos túneis, que deviam ser alargados e
ter a parte superior levantada.
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Segundo, várias curvas reduzidas, uma ou outra com até 69
m de raio.
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Terceiro, rampas de 3,5%, com trechos de até 300 m com 3,8%.
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Quarto, previsão de efeitos nocivos da maresia sobre os equipamentos
elétricos, entre Angra e Alto da Serra.
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Quinto, a locomotiva diesel-elétrica — sem exigir redes de
distribuição e alimentação, e quase tão versátil e disponível
quanto a elétrica — realmente representava a melhor opção econômica.
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