EFOM - Estrada de Ferro Oeste de Minas
O construtor das locomotivas de Divinópolis
José Carlos Menezes — Centro-Oeste nº 4 (Mar-1985)
"Não vai funcionar!" — disse o mecânico-chefe
da oficina da Rede Mineira de Viação (RMV) em Divinópolis,
MG, João Morato de Faria, quando viu as plantas de uma locomotiva
a vapor elaboradas pelo engenheiro-chefe.
Todo o Brasil de 1942 sofria os efeitos da II Grande Guerra, que cortara
drasticamente o fluxo de importações em todos os setores,
inclusive máquinas e peças de reposição essenciais
ao funcionamento da indústria. Por toda parte, pessoas de iniciativa
enfrentavam o desafio de produzir toda espécie de artigos até
então comodamente importados.
O governo de Getúlio Vargas lutava contra a má-vontade
dos EUA em fornecer os equipamentos para a primeira usina siderúrgica
integrada brasileira, em Volta Redonda, e o País — por conta própria
— acelerava o processo de industrialização, como e onde
podia.
Em Divinópolis — uma das maiores oficinas da RMV —, a falta de
peças de reposição e o reduzido número de
locomotivas despertou a idéia de construir suas próprias
máquinas.
Levada à administração central, a idéia foi
aprovada e autorizou-se a construção de 2 unidades pioneiras.
Mas, apesar de sua pouca escolaridade, o veredito de João Morato
sobre o projeto do engenheiro-chefe estava certo.
A advertência não foi considerada e o projeto original foi
mantido. Em 60 dias, a locomotiva ficou pronta, e foi um fiasco total:
— Mesmo sem o peso do tênder, não conseguia movimentar sequer
a si própria.
Só então a administração lembrou a advertência
de João Morato e decidiu conceder-lhe carta branca, material, e
os companheiros que escolhesse, para ver o que conseguiria.
Morato e seus companheiros desmontaram a locomotiva falida, refizeram
todo o projeto e a maioria das peças e, em menos de 30 dias estava
pronta a nº 339 da RMV — uma Pacific imponente. E funcionava.
Feitos os testes e comprovada sua potência, a 339 foi levada a
uma cidade vizinha para esperar o expresso noturno de Belo Horizonte,
à frente do qual faria sua entrada triunfal em Divinópolis.
Em meio à multidão reunida para aclamar festivamente a
chegada da 339, João Morato olhava tudo aquilo, esquecido e de
chapéu na mão, enquanto nos estribos da máquina —
um de cada lado — o engenheiro e o diretor da oficina saudavam a multidão.
A 339 e sua irmã gêmea 340 operaram regularmente nas linhas
do sul e oeste de Minas até que, por volta de 1955, a caldeira
da 339 explodiu por descuido da equipagem.
A 340 deu baixa somente em 1965, ainda em plena atividade, quando a direção
da RFFSA desativou todas as locomotivas a vapor ainda existentes na região.
Atualmente, a 340 está exposta em um tardio mas merecido monumento
aos seus construtores, no bairro Esplanada, Divinópolis, à
frente da oficina de onde saiu.
|
|
|
João Morato de Faria reconstruiu várias locomotivas
e trocou o sistema de freio de várias outras. Foi também
exímio artífice e modelista, construindo o único
modelo em escala da 339 de que se tem notícia.
Este modelo foi posteriormente doado por ele para o leilão
de arrecadação de fundos para construção
de uma igreja em Divinópolis, e arrematado por um antigo
morador da cidade — que nunca deixou de admirar as locomotivas.
Um de seus filhos, João Morato Faria Filho, residente no
bairro Porto Velho, à R. Gonçalves Ledo, 37, Tel.:
037-221-8793, ainda guarda as plantas da 339, desenhadas à
mão por seu pai.
Emoções
No CO-4, vocês apresentaram a 339 e a 340 da RMV. Fiquei
comovido ao vê-las. A 339 e a 340 foram minhas amigas de infância
e de juventude.
Tinha amizade com maquinistas e foguistas. Algumas vezes, permitiram,
escondidamente, que as dirigisse da estação para o
pátio, as levasse à caixa d'água, as colocasse
no girador — que era meio bambo e oscilava quando a locomotiva nele
manobrava — e as levasse até o estacionamento, entre as elevadas
pilhas de lenha.
Muitas vezes fiz o percurso em direção contrária,
levando-as até a caixa d'água e daí para engatá-las
no trem.
Hoje, o pátio não existe mais, nem o girador, nem
a caixa d'água: — Tudo foi removido para dar lugar ao novo
trem urbano de Belo Horizonte.
Délio Araújo, CO-7,
Jun-1985
Caldeiras Shay
As locomotivas 339 e 340 da antiga RMV foram construídas
aproveitando as caldeiras de duas locomotivas tipo Shay, segundo
informações de um mecânico que trabalhava em
Divinópolis na época.
Marcelo Lordeiro, CO-11, Nov-1985
Incentivo
Acabo de receber o DC-18-19, que li de uma assentada, em cerca
de 2h. Estão realmente muito bons. Gostei especialmente das
matérias sobre a Consolidation da Frateschi, que me preencheram
a necessidade de conhecer um pouco mais sobre este lançamento.
A análise da carta do Alexandre Santurian foi exata e me
relembrou a questão de como é importante para todos
— modelistas e fabricantes — ter o retorno do desempenho dos produtos,
no mercado.
A Consolidation é, sem dúvida, a vedete do mercado
brasileiro de ferreomodelismo. Eu, mesmo, já estou programando
meus "trocados" para comprar uma, não só
pelo gosto de tê-la, como pelo incentivo à nossa vaporosa.
É claro que isso não invalida a possibilidade de comprar
uma estrangeira e convertê-la para "uma das nossas".
Particularmente, mantenho o sonho de, um dia, modelar a 340 da RMV,
construída em Divinópolis, por João Morato
e seus colegas. (...)
José Carlos Menezes, DC-20,
|
|