Histórias ferroviárias
A balada de Casey Jones
Délio Araújo — Centro-Oeste nº 75 (1º-Fev-1993)
O companheiro de hobby e amigo Carlos Missaglia teve uma locomotiva
Ten-Wheeler 4-6-0 "Casey Jones", da marca Bowser.
O que é a 4-6-0 "Casey Jones"?
Essa 4-6-0 da Illinois Central Railroad era igual às outras 4-6-0
da mesma série. Até aí, nada de anormal. Quem a celebrizou foi seu
maquinista Casey Jones, que morreu no acidente que destruiu a 4-6-0
n° 382, no ano de 1900.
Lá por 1966, eu fazia o mestrado na Loyola University, em New Orleans.
A Illinois Central era uma das principais ferrovias da cidade.
Seu trem de luxo, todo de carros Pullman, que corria entre Chicago
e New Orleans — denominado Panama Limited —, era famoso
Uma das linhas da Illinois Central passava perto da Loyola, beirando
o rio Mississipi. Lá por vezes, dava uma fugida para conversar com
o pessoal da ferrovia. Fiz muitos amigos.
Foi assim que fiquei conhecendo a saga de Casey Jones.
Até aquele ano, sua memória e sua história eram lembradas e comentadas.
Se a memória não me trai, o nome do trágico maquinista era John
Luther Jones. Era natural de Cayce, no Estado do Kentucky.
Na ferrovia, o nome da terra natal de John Luther Jones foi transmudado
para o apelido Casey. Daí, passou a ser conhecido por Casey Jones.
Segundo contaram-me, Casey Jones era reconhecido por seu conhecimento
prático das linhas da Illinois Central entre Memphis, no Estado
de Tennessee, e Jackson, Mississipi.
Sua maestria em conduzir locomotivas era admirada.
Por isso, no início do ano de 1900, foi designado para pilotar,
com a 4-6-0 n° 382, o mais rápido trem da Illinois Central, o Cannonball
Express. Esse trem fazia também o serviço de correio entre Chicago
e New Orleans.
Casey Jones ficou encarregado da tração do trem entre Memphis e
Canton, Mississipi. Eram 189 milhas, pouco mais de 302 km, de linha
cheia de curvas e com algumas rampas pesadas.
No dia 30 de abril de 1900, Casey Jones e seu foguista Sim Webb
(será que se escreve assim?), ao saírem de Memphis com a 382, haviam
recebido o Cannonball Express com 75 minutos de atraso.
O trem partiu de Memphis 50 minutos depois da meia-noite e era
formado por 12 carros.
Casey Jones decidiu tirar o atraso.
Segundo me contaram, deve ter chegado a 140, ou mesmo 160 km/h.
A 382 vaporizava muito bem; Casey Jones era ótimo maquinista; e
seu foguista, Sim Webb, era reconhecido por sua arte.
No entanto, um cargueiro corria à frente do Cannonball Express,
e Casey Jones devia ultrapassá-lo em Vaughan, cidadezinha situada
uns 20 km antes de Canton. Em Canton, a 382 devia ser substituída.
Ao entrar no desvio, rompeu-se a mangueira de ar comprimido em
um dos vagões do cargueiro. Este parou com alguns vagões e o caboose
na linha principal.
A tripulação do cargueiro procurou rapidamente o defeito, pois
sem repará-lo, não seria possível retirar da linha principal (direta)
os vagões e o caboose que a ocupavam.
Enquanto a tripulação procurava, freneticamente, soltar os freios,
de repente ouviu-se a tiragem violenta e ensurdecedora da 382, em
plena velocidade! Havia alguma neblina. O farol da 382 esbranquiçou
a névoa baixa.
A tripulação do cargueiro, ao que me recordo, largou o serviço,
pondo-se a salvo.
Casey Jones estava com atraso de apenas 2 minutos! Havia recuperado
o tempo perdido.
De repente, Casey Jones gritou para o foguista: — Pule, Sim! Caia
fora!
Casey Jones havia enxergado as luzes traseiras das lanternas sinalizadoras
do caboose.
Pôs a 4-6-0 em marcha-à-ré, deu pleno vapor e acionou o areieiro.
As rodas motrizes da 382 rodopiaram nos trilhos úmidos da névoa.
Apesar da areia, a inércia fazia o Cannonball Express avançar em
alta velocidade.
Apitando para alertar a tripulação do cargueiro, Casey Jones atingiu
o caboose, destruiu-o completamente, e rompeu pelo meio os dois
vagões seguintes.
A 382 descarrilou, rodopiou e tombou em direção contrária à que
vinha.
Na cabine, Casey Jones estava morto, com um parafuso atravessado
no pescoço e com pesado fardo de feno — carga de um dos vagões —
esmagando-lhe parte do corpo.
Sim Webb, o foguista de Casey, machucou-se muito, ao pular.
O estafeta do carro-correio, logo atrás da locomotiva, também se
feriu muito com o impacto contra as paredes do carro.
Mas só Webb e o estafeta A. Stein se feriram e foram hospitalizados,
pelo que me contaram e me recordo.
Casey Jones tornou-se conhecido através de uma balada muito harmoniosa
e melódica, de versos muito bem compostos, de autoria de um ferroviário
do depósito de locomotivas, Wallace Saunders.
A balada descreve a última viagem de Casey Jones.
Portanto, a 4-6-0 "Casey Jones" da Bowser, embora cara, bem detalhada
e de qualidade, tem mercado certo entre os colecionadores norte-americanos.
Qual deles não gostaria de ter um modelo da 382, a locomotiva de
um maquinista tido como herói?
Sim Webb e Wallace Saunders eram negros.
Um branco morreu mandando um negro salvar-se.
Outro negro homenageou o branco salvador.
Esse raciocínio contribuiu para que a balada se tornasse popular,
e muito significativa para os sulistas norte-americanos. Senti isso
quando me narraram a saga de Casey Jones.
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