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As ferrovias bananeiras
do litoral sul paulista

Nilson Rodrigues
Fotos: Cid Beraldo e Nilson Rodrigues
Esta matéria, recebida pelo Centro-Oeste em 1995, permaneceu inédita desde então — e está sendo publicada sem alterações.

O litoral sul paulista sempre teve grande destaque na produção e comercialização de bananas. Até há pouco tempo, o produto tinha grande aceitação no mercado externo, principalmente no Uruguai e Argentina.

Recentemente, o litoral sul paulista foi suplantado pela produção de outros países que, em virtude de clima mais favorável e, naturalmente, apurada tecnologia, conseguiram manter e ainda melhorar sua qualidade. Nos últimos anos, o destino da produção de bananas do litoral sul tem-se limitado ao consumo interno.

Para os aficcionados por ferrovias, principalmente aqueles que admiram ferrovias pequenas, sem muitas exigências quanto ao estado de conservação e ao charme que as grandes ferrovias proporcionam, esta região pode ser considerada um grande manancial de material de bitola estreita.

Muitas das fazendas produtoras de bananas utilizam — ou utilizaram —, em seu interior, pequenas ferrovias para a colheita e transporte interno do produto. Após devidamente selecionadas, as bananas são transportadas, na maioria dos casos, para a Ceasa-SP.

Localização

Grande parte das fazendas produtoras de banana localizam-se nos municípios de Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Itariri e, afastando-se do litoral, Pedro de Toledo, Juquiá etc.

Tivemos a oportunidade de ver um mapa do IBGE, datado de 1953, com a localização de todas essas fazendas, porém não guardamos cópia.

O interessante é que boa parte dessas fazendas opera ou operou seu sistema interno de transporte com ferrovias. Não visitamos todas, e não sabemos quantas ainda operam com ferrovias. As que visitamos foram as seguintes:

  • Fazenda Áurea, Itanhaém (*)
  • Fazenda Araraú, Itanhaém
  • Fazenda Jatobatuba, Peruíbe
  • Fazenda São Francisco, Itariri

(*) - Durante nossa visita à Fazenda Áurea, alguns anos atrás, estava sendo desativada sua mini-ferrovia. Acreditamos que o sistema já tenha sido erradicado.

É importante notar que quase todas as fazendas da faixa litorânea estão encravadas nas encostas da serra do Mar e não são vistas pelos que se dirigem às praias. É necessário tomar longas estradas de terra, a partir da rodovia Manoel da Nóbrega (SP-55), para se chegar a elas.

Composição básica

Quase todas as fazendas utilizam (ou utilizavam) o sistema chamado "decauville", com bitola de 60 cm, trilhos leves (12 kg/m) e pequenas locomotivas diesel-mecânicas com transmissão por corrente — como a de uma bicicleta —, potência na faixa de 20 a 30 HP e peso médio de 4 a 5 toneladas.

O motor diesel das locomotivas é, geralmente, de 2 cilindros, acoplado a um volante de inércia. O acionamento, como foi dito, é mecânico, por correntes. A transmissão é feita por fricção e câmbio de 2 marchas, frente e ré.

É interessante notar que a posição do maquinista nestas locomotivas, normalmente, é transversal, como se pode comprovar pelas fotos.

Para o transporte de bananas, são utilizados vagões prancha fabricados artesanalmente nas próprias fazendas. Os prancha podem ser de 2 ou 4 eixos. O sistema de engate é também primitivo, por corrente e até por cabos de aço.

As instalações são sempre muito primitivas e poucos são os cuidados de manutenção, feita sempre de forma muito artesanal, como se pode observar nas fotos.

Principais fabricantes

Concentremo-nos nas locomotivas, pois o resto do material rodante se compõe de peças, quase sempre, feitas nas próprias fazendas.

A maioria das locomotivas são de origem inglesa:

  • Planet
  • Ruston
  • Simplex
  • Dorman Long

Encontramos, também, 2 interessantes exemplares de fabricação alemã:

  • Orenstein & Koppel
  • Henschel & Sohn

Atualmente, a fábrica inglesa Allen Keef Ltd. absorveu algumas marcas. Eis seu folheto de propaganda, com dimensões das locomotivas produzidas hoje, para dar uma idéia do material.

Vale salientar que, devido à dificuldade de encontrar peças sobressalentes, muitas vezes as fazendas recorrem às suas próprias oficinas para manutenção das locomotivas, fazendo ali todo tipo de conserto, para manter o material em funcionamento.

Com isso, algumas locomotivas acabam desfiguradas. O conserto mais comum é a troca do motor.

Como se pode imaginar, o leito dessas pequenas ferrovias não é nenhum primor. Em geral, só se consegue enxergar a face superior dos trilhos, pois o restante está enterrado ou — muitas vezes — submerso.

As chaves de desvio, na maioria, sequer possuem travessa entre as agulhas.

Apesar de tudo, essas pequenas ferrovias são muito atraentes, pois são singulares e exóticas. A paisagem é muito bonita, porque essas fazendas se localizam sempre em vales próximos à serra do Mar, com muito verde, riachos etc.

A mini-ferrovia da Fepasa

Ferrovia, também, bastante singular é a utilizada pela Fepasa entre Mongaguá e uma grande área que lhe pertence junto às encostas da serra do Mar.

Segundo consta, a Fepasa utilizava um casarão existente nessa grande gleba de terras para sede administrativa e, ainda, como local de férias para seus funcionários.

A pequena ferrovia era o meio de comunicação entre o casarão e Mongaguá.

Acredita-se que, em outras épocas, esta ferrovia partia da estação de Mongaguá, da EF Sorocabana. Hoje, seu início fica a cerca de 3 km da estação, em direção a Itanhaém, no bairro conhecido como Vila Atlântica. Não há nada que indique onde fica o início da ferrovia e a única alternativa é perguntar aos moradores do local.

Esta ferrovia, apesar de pertencer à Fepasa, até há bem pouco tempo era utilizada por diversos moradores das imediações, pois no início dela pode-se ver diversas garagens ao lado dos trilhos.

A bitola também é de 60 cm e o sistema decauville. Os meios de locomoção são bastante variados, desde "troleys" motorizados até simples pranchas com propulsão "a vara" — isto é, uma pessoa vai em pé, numa prancha sobre rodas, e a empurra apoiando uma vara sobre o solo, como se usa em certas embarcações lacustres e fluviais.

O troley utilizado pela Fepasa é bem mais primitivo que as locomotivas das fazendas bananeiras. Trata-se de um veículo primitivo, com um pequeno motor de 2 tempos, a gasolina, acoplado por corrente.

É interessante notar que, devido às enchentes na época chuvosa, os troleys foram construídos com motores bem elevados, pois a água chega a subir até 50 cm acima dos trilhos!

Vimos, também, um troley um pouco mais sofisticado que o da Fepasa — com câmbio Volkswagen adaptado ao motor — o que, sem dúvida, proporcionava muita facilidade ao condutor.

Como esta ferrovia também é utilizada para o transporte de bananas, muitas vezes são acoplados aos troleys pequenos vagões prancha de 2 eixos.

Esta ferrovia é bastante extensa, com cerca de 13 km. A ponte sobre o rio Preto é a mais longa e, também, bastante precária, como se pode ver na Foto 8.

Infelizmente, os que conseguiram conhecer esta interessante ferrovia são privilegiados. Recentemente, por problemas de segurança — presença de "grileiros" — a Fepasa proibiu o transporte de pessoas que não sejam ligadas à sua operação.

Vale a pena, no entanto, conhecer as demais ferrovias citadas acima, bem como "descobrir" outras ainda existentes na região — pois temos informações de que realmente existem outras, ainda não visitadas.

  

Links

Fotos

Foto 1 - Galpão de selecionamento de bananas, que é uma construção comum a todas as fazendas. As bananas chegam ao galpão por ferrovia e, após a classificação, são carregadas em caminhões rumo à Ceasa. Note também 2 pranchas de 4 eixos. Foto de Nilson Rodrigues, na Fazenda Jatobatuba.

Foto 2 - Frota da Fazenda Araraú, a contar da esquerda: (1) Locomotiva Simplex modificada, com novo motor e radiador reposicionado; (2) Locomotiva Simplex original, com o radiador na posição de fábrica; (2) Locomotiva Orenstein & Koppel. Foto de Nilson Rodrigues.

Foto 3 - Composição típica das ferrovias bananeiras: 1 locomotiva Simplex com 2 a 3 pranchas de banana, rumando para o galpão de classificação. Note a posição do maquinista, na transversal. Foto de Cid Beraldo.

Foto 4 - Galpão de selecionamento de bananas da Fazenda São Francisco, em Itariri. Foto de Nilson Rodrigues.

Foto 5 - Arranjo típico da ferrovia atravessando o bananal, na Fazenda Jatobatuba, onde se pode notar a forma rústica do assentamento dos trilhos. Foto de Cid Beraldo.

Foto 6 - Locomotiva Planet, já desativada, na Fazenda Jatobatuba, em Peruíbe. Foto de Cid Beraldo.

Foto 7 - Dentre os troleys motorizados da mini-ferrovia da Fepasa em Mongaguá, este é o mais "sofisticado", com um toldo de cobertura e câmbio de marchas. Devido às inundações, o motor é colocado em local alto. Foto de Nilson Rodrigues.

Foto 8 - Ponte sobre o rio Preto, em Mongaguá. Cruzá-la com pranchas carregadas de banana é uma operação de alto risco. Foto de Nilson Rodrigues.

Foto 9 - Foi uma surpresa encontrar esta "puro-sangue" Henschel, nº de série 6513, de 1939, em reparos ao lado de sacos de adubo e caixas de banana. Foto de Nilson Rodrigues, na Fazenda São Francisco, em Itariri.

Foto 10 - Locomotiva Orenstein & Koppel sem placas de identificação — outra "puro-sangue", cuja descoberta foi gratificante. O motor diesel já não é original, substituído por um Yanmar. Foto de Nilson Rodrigues, na Fazenda Araraú, Itanhaém.

Foto 11 - Locomotiva Simplex — provavelmente, a mais tradicional marca de locomotivas desse tipo. Note o arranjo do motor, transversal, e o radiador exposto, acionado por correia. Foto de Cid Beraldo, na Fazenda Jatobatuba.

Foto 12 - Túnel sob a rodovia da Banana, que liga Peruíbe à BR-116. A altura do túnel é de apenas 1,6 m. Foto de Nilson Rodrigues, na Fazenda São Francisco, Itariri.

Foto 13 - Esse é o tipo mais comum de ponte nas "bananeiras": 2 toras longitudinais, alguns dormentes sobre elas e 2 pranchas de madeira para pedestres. Foto de Cid Beraldo, na Fazenda São Francisco.

Foto 14 - Outra interessante locomotiva, marca Ruston, fabricada na Inglaterra. Gostamos desta locomotiva, por ter linhas harmoniosas. Foto de Cid Beraldo, na Fazenda Áurea, Itanhaém.

Novas fotos

Sede da Fazenda Araraú, situada entre Itanhém e Peruibe, junto às encostas da Serra do Mar. A Fazenda Araraú mantém ativas duas locomotivas "Simplex" e uma locomotiva Orenstein & Koppel guardada nas oficinas, em condições de operação. Os trilhos à esquerda conduzem ao barracão onde ficam as locomotivas, e o trilho onde está a prancha para bananas, leva ao interior da fazenda, onde se colhem as bananas.

Sede da Fazenda Caepupu, que é na verdade um prolongamento da Fazenda Araraú, já que ambas pertencem ao mesmo dono, e são administradas pela mesma pessoa. A Fazenda Caepupu tem um histórico interessante, pois foi concebida para produzir cacau...porém a experiência não deu certo e hoje boa parte dela está inativa, com galpões inteiros fechados. Tivemos oportunidade de ver um grande galpão, com todos os maquinários internos, que aparentemente nunca operaram... Quase todo o complexo hoje, é utilizado para processar bananas e alojar todos os funcionários, já que a sede da Araraú é muito pequena e não dispõe de alojamento. No mapa que temos à mão, dá para se ver que o complexo de ferrovia tipo decauville dessa fazenda era enorme, porém foi desativado. Encontramos duas locomotivas abandonadas ao longo da fazenda, as duas em condições desfavoráveis, ao relento.

Uma das locomotivas que restaram da Fazenda Caepupu, uma Henschel n° 1663, ano 1938. Esta loco é irmã daquela que se encontra na Fazenda São Francisco, porém seu estado é de total irrecuperabilidade, já que está exposta ao tempo há longa data. Como foi dito, o sistema de ferrovia da Caepupu foi erradicado há mais de 15 anos, mas segundo consta era bem maior do que o da Araraú.

Foto feita por John Kirchner em Ago-2000, quando de suas férias no Brasil. Durante uma de suas incursões pelas bananeiras, descobriu uma Planet abandonada na Fazenda Caepupu. Essa foto faz parte do site do Kirchner, porém acho que seria interessante colocar no nosso site também, pois é uma raridade.

Esta foto foi feita na Fazenda Laranjeiras, que fica muito proxima da cidade de Peruibe. Parece-nos ser muito parecida com a Orenstein & Koppel da Araraú, pelo menos externamente. A Fazenda Laranjeiras está desativada há uns 20 anos, e produzia algo que não me parece muito comum: farinha de banana, cujo emprego eu não conheço. Também possuia, pelo que ouvi, um grande sistema decauville em suas dependências.

  

As ferrovias bananeiras... | Fotos: 1 - Galpão de selecionamento na Fazenda Jatobatuba | 2 - Frota da Fazenda Araraú | 3 - Composição típica: 1 Simplex com 2 a 3 pranchas | 4 - Galpão de selecionamento da Fazenda São Francisco | 5 - Ferrovia atravessando o bananal, na Fazenda Jatobatuba | 6 - Locomotiva Planet desativada, na Fazenda Jatobatuba | 7 - Troley motorizado da mini-ferrovia da Fepasa em Mongaguá | 8 - Ponte sobre o rio Preto, em Mongaguá | 9 - Henschel na Fazenda São Francisco | 10 - Orenstein & Koppel na Fazenda Araraú | 11 - Simplex na Fazenda Jatobatuba | 12 - Túnel sob a rodovia da Banana, na Fazenda São Francisco | 13 - Ponte na Fazenda São Francisco | 14 - Ruston na Fazenda Áurea | Novas fotos: Sede da Fazenda Araraú | Sede da Fazenda Caepupu | Henschel na Fazenda Caepupu | Planet abandonada na Fazenda Caepupu | Orenstein & Koppel na Fazenda Laranjeiras
Atualizado em 22-Feb-2010
 
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