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Uma segunda linha — de Salgueiro ao Recife — foi incluída no projeto de retificação e alargamento, talvez para captar apoio político no Pernambuco (onde se deseja deslanchar o porto de Suape), que constituía um dos principais focos de oposição ao projeto novo. Todas as demais cargas potenciais citadas na divulgação inicial — inclusive mel —, juntas, não justificam o projeto novo, estimado em nada menos que R$ 4,5 bilhões. Sugeriam um apanhado de itens reunidos a posteriori (e sem muito senso crítico) para vender a idéia: cada carga citada representava um público (cadeia produtiva) a ser conquistado, através de palestras e apresentações, para ampliar o número de defensores do projeto. Matérias ufanistas, feitas publicar até em jornais do interior do Sudeste, incluíram no cesto a soja do oeste baiano (fora da rota); e frutas das áreas irrigadas do vale do São Francisco — onde o projeto novo não pretende ir. |
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Apesar das tantas e tão fantásticas perspectivas de retorno alardeadas na divulgação, os grupos envolvidos prevêem modesto aporte de recursos próprios ou de outros investidores privados. Sua engenharia financeira apoia-se principalmente em recursos públicos, incentivos fiscais e empréstimos estatais. Afinal — argumentam — o governo será o verdadeiro dono das linhas, já que a CFN é apenas uma concessão.
| Fonte | Valor Econômico 13 Jul. 2006 |
Folha de Pernambuco 12 Jul. 2006 |
|---|---|---|
| BNDES - Empréstimo | 500.000.000,00 | 400.000.000,00 |
| FNDE | 2.270.000.000,00 | 2.220.000.000,00 |
| Finor | 700.000.000,00 | 823.000.000,00 |
| CFN / CSN | o resto | 1.050.000.000,00 |
| Total | 4.500.000.000,00 | 4.500.000.000,00 |
| * Até (data?) a montagem previa R$ 3,95 bilhões em recursos públicos, incentivos, etc., contra apenas R$ 0,55 bilhão da CFN e outros investidores privados — dos quais R$ 0,3 bilhão seriam "ativos da CFN" que iriam "integrar o investimento". Segundo a CVRD, porém, o patrimônio da CFN era negativo. Ficava o mistério de saber quais ativos, então, representariam aquele R$ 0,3 bilhão, dentro do R$ 0,55 bilhão a ser colocado pela CFN e outros investidores privados. | ||
Além do ramal pernambucano e das cargas reunidas para fazer peso, a divulgação às vezes acena com um futuro prolongamento da linha até o sul do Maranhão — área de influência da Ferrovia Norte-Sul (que está retomando as obras de ampliação no Tocantins). É possível que esse adendo visasse angariar apoios adicionais. Mas é difícil imaginar que lógica poderia existir em fazer concorrência a outra ferrovia, já em operação, e que oferece um trajeto bem mais curto, para um porto já aparelhado (Itaqui).
Em outros casos, a divulgação chegava a acenar com avanço ainda maior, cruzando a Ferrovia Norte-Sul e entrando pelo sul do Pará. Em casos extremos, acenava com um avanço pela área da Ferronorte, no coração do Mato Grosso. O céu — ou o oceano Pacífico — era o limite, pelo menos no mundo dos slide-shows produzidos em computador. Soava mais como um desafio, talvez com objetivos políticos alheios ao projeto novo real, do que uma pretensão verossímil.
Infelizmente, traz à lembrança velhas disputas entre ferrovias paulistas — em que, muitas vezes, havia mais interesse em esbarrar potencialidades futuras de uma ferrovia concorrente, do que em construir uma via férrea, em prazo previsível, na zona assegurada por tais lances. O alvo, no caso, poderia ser a CVRD, com a qual o grupo Vicunha parecia ter alguma diferença.
Aperitivos adicionais — como o aceno a trens de passageiros de alta velocidade, coisa de Primeiro Mundo — eram compreensíveis, mas chocavam-se com o histórico da CFN desde a privatização: descumprimento das metas fixadas no contrato e deterioração de boa parte das linhas *[Há várias denúncias de retirada e venda, como sucata, dos trilhos da linha que ligava Souza (PB) a Mossoró (RN)].
Quebra de bitolaAo contrário do projeto original da Transnordestina, a Nova Trans — a um custo 5 ou 6 vezes maior — em nada contribuiria para integrar a rede ferroviária da região (pelo menos, em prazo visível no horizonte), nem para reduzir os trajetos entre seus polos industriais e de consumo, ou entre eles e o Sudeste. Pelo contrário, introduziria na região a quebra de bitola — criando um obstáculo a mais para o tráfego entre os polos principais, dentro e fora da região. Haveria 1.150 ou 1.193 km de linhas em bitola 1,60 m. As demais linhas do Nordeste passariam a viver a situação já experimentada pela malha métrica do Sudeste — segregação por quebra de bitola, aumentando sua desvantagem perante o caminhão, que vai a qualquer parte (e por trajetos diretos, mais curtos). Um trem não poderia circular de São Luís a Salvador — nem de Fortaleza ao Sudeste. Se isto sepultaria uma possibilidade de aumento de tráfego para a FCA (controlada pela CVRD), também prejudicaria linhas da própria CFN, que veriam afastar-se cada vez mais qualquer hipótese de recuperação econômica; e a economia da região, definitivamente condenada a depender do caminhão entre seus polos principais de indústria e consumo. A questão parece não preocupar os controladores da CFN — tal como não parece ter preocupado a interrupção da linha que ligava suas linhas às da FCA, à Bahia e a todo o Sudeste. A conexão, destruída pelas chuvas de 2000 em Alagoas, continua fora de operação há 6 anos, enquanto a CFN travava uma queda-de-braço com o governo: O contrato assinado na época da privatização estipulou que a concessionária é responsável pela manutenção das linhas, mas não previu expressamente a hipótese de reconstrução, no caso de catástrofe natural. Só no início de 2006, afinal, anunciou-se que o trecho — de 600 km — será reconstruído até meados de 2007, ao custo de R$ 111 milhões, aproveitando o leito ja existente. Segundo declaração da CFN em Fev. 2006, "a fonte de recursos deve ser o Finor". Outra notícia indica um prazo de 20 meses, ou seja, 2008. A destruição pelas chuvas não foi a única quebra ocorrida nas linhas do Nordeste. De todas as concessionárias, a CFN destaca-se por não ter cumprido as metas fixadas no contrato da privatização. O transporte não aumentou, não houve recuperação econômica, e centenas de quilômetros de via férrea permanecem abandonados, deteriorando-se por falta de manutenção. Inúmeras empresas viram-se obrigadas a trocar o trem pelo caminhão. |
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