Canhões ferroviários
Artilharia ferroviária no Brasil
Jairo A. O. Mello
Centro-Oeste n° 65 10 Abr. 1992
Podemos dizer que, num dia, inventaram o trem; no seguinte, a artilharia ferroviária. Desde a guerra civil americana até a II Grande Guerra
Mundial, ocorreu um desenvolvimento contínuo. Hoje, esses gigantes são obsoletos, diante da evolução tecnológica dos armamentos.
A artilharia ferroviária foi a arma das potências continentais, possuidoras de grandes malhas ferroviárias, possibilitando grande mobilidade
às peças.
O primeiro grande plano para uso desse tipo de armamento foi realizado na Inglaterra, no 1° quarto do século XIX. O primeiro uso em combate
deu-se em 1865, na guerra civil americana.
Na I Guerra Mundial, despontam os alemães com seus famosos Krupp — "canhão de Paris" —, capazes de disparos com alcance de 132 km.
Durante a guerra civil russa, foram usados vários canhões ferroviários, bem como vários trens blindados.
França, Inglaterra, Estados Unidos e outros países desenvolveram vários tipos de canhões ferroviários, no interlúdio das guerras mundiais,
todos com problemas de posicionamento.
A grande evolução devemos, de novo, aos alemães, tanto da Krupp quanto da Deutschreichsbahn. Eles desenvolveram um girador — possibilitando
posicionar rapidamente a peça e trocar logo de posição — e que tomou o nome de seu criador, Vogele. Era todo desmontável e de fácil transporte.
Os alemães foram os últimos grandes usuários da artilharia ferroviária.
O exército americano desenvolveu um novo uso para a artilharia ferroviária — a artilharia de costa móvel —, por possibilitar maior mobilidade
para as peças, tornando mais difícil a localização das baterias. Um real avanço em relação à técnica de pontos fixos na costa, desenvolvida
pelos alemães na I Guerra Mundial.
Brasil
O modelo de artilharia ferroviária adotado no Brasil foi o americano.
Em 1940, o capitão de artilharia Alfredo Bruno Gomes Martins foi designado para a missão militar brasileira nos EUA e produziu um relatório
preconizando a compra de 11 canhões, excedentes dos arsenais americanos, bem como plataformas ferroviárias.
Efetivada a compra, retornou em 1942. Assumiu a comissão de recebimento do material, que foi transformada na comissão técnica que concluiu
pela necessidade de modificações no material original.
Todo o trabalho foi efetuado sob sua direção e orientação, nas oficinas Trajano de Medeiros, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Também
projetou todo o material rodante.
Pelo decreto-lei n° 5.370, de 1943/Abr/2, foi criado o 13° Grupo Móvel de Artilharia de Costa, com estado maior; seção extra; e duas baterias
de tiro, com a missão de reforçar a defesa do porto do Rio de Janeiro.
A fase de organização da unidade foi levada a efeito na sede da Diretoria de Defesa de Costa, então situada no Ministério da Guerra, ala
Marcílio Dias, comandada pelo general de brigada Sebastião do Rego Barros.
Pelo aviso ministerial de 1943/Abr/8, passou a ter autonomia administrativa, devendo ocupar uma posição em Inoã, no município de Maricá,
RJ (mapa 2).
O local destinado para sede da unidade era um antigo armazém para guarda de excedentes de café. Estava situado no bairro de Santana do Maruni,
no município de Niterói (outros, consideram que o bairro seja o do Barreto).
A área era alagadiça, cercada por terrenos particulares e necessitando de aterro. Para a maioria, nada mais era que um pantanal. Esse foi
um grande problema que teve de ser enfrentado, para transformar tudo aquilo em um aquartelamento.
Em 1944/Jan, foi aprovado projeto para transformação do imóvel. De janeiro a outubro, foram construídos:
- Pavilhão sanitário
- Garagem para material moto-mecanizado
- Cisternas e caixa d'água
- Cozinhas
- Linhas ferroviárias
- Divisão dos armazéns (administração e alojamentos)
O pavilhão da gare (antigo armazém) foi o esforço principal. Abriu-se uma enorme parede que dá frente para a vila operária. Foi removido
todo piso do interior, para passagem dos trilhos.

Mapa 1 - Localização das instalações da artilharia ferroviária
em relação aos trilhos em Niterói
Feito o aterro, foram assentadas as linhas para manobrar os vagões e dar acesso à gare.
O local não era o ideal para guarda do material ferroviário, pois a maior parte ficaria ao relento, trazendo sérios prejuízos com os anos.
Em relação à segurança, a área nada oferecia, com uma simples cerca de arame farpado.
A instalação oficial se deu em 1944/Nov/16, na presença de altas autoridades. Esta solenidade marcou época. Às 10h em ponto, uma locomotiva
apitando passou pelo portão, capitaneando a composição de 22 vagões com os pertences que eram a quase totalidade do material do grupo. Foguetes
espoucavam anunciando a chegada.
Foi seu primeiro comandante o tenente-coronel Olindo Denys. Em 1945/Mar, assumiu o tenente-coronel Augusto Frederico de Araújo Corrêa Lima.
A 17, ocorreu a cerimônia de apresentação da bandeira.
Pelo aviso ministerial de 1945/Abr/24, a denominação do grupo passou a ser "1° Grupo Ferroviário de Artilharia de Costa — 1° GFAC".
No início de 1945/Mai, começa o período de instrução. De 5 a 15, exercício de tiro real, tiro de velocidade inicial e de tabela, sob a orientação
do major QTA Alfredo Bruno Gomes Martins. Para tal, instalou-se em Inoã e Buriche, na Estrada de Ferro Maricá.
Em 1946/Abr/24, assume o tenente-coronel Edgard de Paula Costa. O boletim reservado n° 6-6, 1947/Jan/28, torna sem efetivo uma bateria do
grupo. Pela primeira vez, é citada a bateria de comando.
Entre Jul/24 e Ago/4, a bateria de comando e a 1ª bateria se deslocaram para a fazenda da Conceição, na estrada da Conceição, município de
São Gonçalo, para exercícios de serviço em campanha. Durante os exercícios, recebeu a visita dos alunos da escola técnica do Exército, que
participaram do tiro real.
Em 1947/Out/27, o grupo deslocou-se para a região de Inoã, acampando na fazenda Taquaral com três composições ferroviárias estacionadas em
um triângulo, com desvio de 120 metros construído pelo pessoal do grupo. O tempo gasto dá uma média de 4 h por trem, do quartel até Inoã.
Em 1947/Out/31, exercício de tiro real com a presença e direção do diretor do polígono de Marambaia, tenente-coronel Edgard Alvares Lopes,
com alvo rebocado e alvo fixo na ilha de Maricá. O grupo estava com dois canhões.
Em 1947/Nov/13, foram recebidas duas viaturas cozinha.
Durante o comando do tenente-coronel Paula Costa, os vagões sofreram uma enorme reparação, com mudança de todo madeirame, reparação de todo
interior e pintura.
A 1948/Ago/26, ordem de deslocamento a 27 par a região de Inoã, para manobras. Em 1949/Out/17, deslocamento para Inoã, para exercícios de
tiro real. Em 1950/Ago/7, deslocamento para a fazenda Taquaral, para exercícios de tiro real. Em 1951/Set/2, ocorreu o primeiro deslocamento
para Imbetiba, em Macaé, para exercícios de tiro real.
Em 1951/Dez, mudou a denominação para "1° Grupo de Artilharia de Costa Ferroviária — 1° GA Cos FV". Em 1952/Jan/10, assume o tenente-coronel
Brunno Augusto Coelho Netto. Em 52/Jul/24, o grupo seguiu para Macaé, via EF Leopoldina, para exercício de tiro real — uma bateria de tiro
— uma composição.
Em 1953/Abr/10, assume o tenente-coronel Alcides Boiteaux Piazza. Em 53/Out/2, é recebida a primeira turma de aspirantes. Em 53/Dez/2, é
criada a flâmula da unidade.
Em 1954/Mai/20, assume o coronel Paulo Joaquim Lopes. O relatório deste ano cita a existência de miniaturas em escala, do material rodante,
para instrução. Em 1955/Ago/1°, assume o coronel Antônio Carlos da Silva Muricy. Em 1956/Mai/31, assume o tenente-coronel Irto Sardenberg.
Em 1957/Set/9, segue um destacamento para preparar o campo de tiro na região de Inoã. Em Nov/21, seguiu uma coluna motorizada, composta por
quatro viaturas com reboque. Em Nov/23, seguiram duas composições ferroviárias.
Logo após assumir o comando, o tenente-coronel Irto iniciou a recuperação das viaturas do grupo, pois encontravam-se inservíveis. Foi dada
manutenção a todo material ferroviário.
Nas comemorações do 15° aniversário do grupo, o tenente-coronel Irto recepcionou o ministro da Guerra, general Lott, que veio em lancha especial
até o porto do Maruni, e daí até o grupo. Na mesma época, o pátio foi asfaltado.
Em 1958/Abr/7, seguiu para Macaé uma turma de reconhecimento para estudar o local para exercício de tiro. Em Abr/11, seguiu o grupo, dividido
em comboio motorizado e ferroviário.
Em 1958/Jun/30, assume o tenente-coronel Carlos Alvares Noll. Sob sua orientação, todos os truques e madeiramento dos vagões foram reparados,
todo material de artilharia revisado e posto em condições de cumprir qualquer missão.
Em 1959/Jan/26, parte para Macaé o grupo de reconhecimento e topografia, para preparar a área para exercícios de tiro.
Em 1959/Mar/4, deslocamento do grupo para Macaé. Acantonado em Imbetiba. Em Mar/15, apresentou-se ao comando do grupo a equipe de análise
de tiro. Em Mar/17, início do exercício de tiro real.
Em 1960/Jan/4, foi incluído na carga do grupo o vagão-saúde doado pela EF Leopoldina.
Em 1960/Fev/9, deslocamento, para Macaé, da ala motorizada. Em Fev/10, da ala ferroviária. Acantonado em Imbetiba. Autorização para consumo
de 16 tiros.
O grupo foi extinto em 1961/Jun/14. Em Jul/1°, cassada sua autonomia.
Material
Em 1923, logo após a conferência de limitação dos meios navais, realizada em Washington, a marinha dos EUA declarou supérfluos (excedentes)
vários tipos de canhão. O exército os manteve em depósito, assim como a marinha.
O canhão de 7 polegadas, originalmente fabricado pela Bethlehem Steel Corporation para cruzadores da marinha, estava nessa leva, por haverem
mudado as especificações. O novo padrão mínimo era, agora, de 8 polegadas.
Dos estoques da marinha dos EUA, o Brasil adquiriu 11 peças com os respectivos reparos ferroviários M1A1.
As principais modificações introduzidas foram:
- Inversão do canhão, o que permitiu um maior ângulo de elevação.
- Aumento da carga de projeção, conseguindo com isso um aumento de 5.200 metros no alcance.
- Adaptação da plataforma M1A1 para bitola métrica (originalmente, era na bitola padrão de 1,435 m).
Todo material, tanto o modificado quanto o produzido, foi feito nas oficinas Trajano de Medeiros, sob controle da Estrada de Ferro Central
do Brasil e do capitão Bruno.
O apoio técnico era dado pelas oficinas da Urca. A munição era preparada pela fábrica do Realengo.
Quadro de pessoal – Núcleo base
Bateria de comando e serviços
- Artilheiro de costa
- Ferroviário assentador de linha
- Saúde — Pessoal de saúde
- Comunicações
- Transportes
- Burocratas
- Corneteiro
Efetivo variável – Bia C Su
- Pessoal de munições
- Pessoal de peça e munição
- Pessoal de levantamento e observação
- Pessoal de tração e tráfego
1ª Bateria
- Pessoal de direção de tiro
- Pessoal de câmara de tiro
- Pessoal de tração e tráfego
- Pessoal de peça e munição
- Comunicações
- Pessoal de levantamento e observação
Conclusão
Infelizmente, ainda não foi possível localizar as plantas do material rodante do grupo.
Do projeto inicial de 4 grupos de artilharia ferroviária, resta apenas um vagão-peça, em monumento no antigo aquartelamento do grupo.
Aos veteranos do Gefac e ao arquivo histórico do Exército, os meus sinceros agradecimentos.
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