Como fotografar maquetes & ferreomodelos
Estou lhes escrevendo para ver se vocês resolvem um problema:
— Qual o tipo de lente ideal para se fotografar maquetes?
Tenho usado uma lente de 58 mm, e não tenho obtido bons
resultados (Ermírio Coutinho, Curitiba, PR).
Ainda não dominei a difícil arte de fotografar maquetes — e tremo
só de pensar no custo de todo o equipamento que os entendidos dizem
ser necessário.
Naturalmente, estamos falando daquelas fotos maravilhosas — onde a mini-ferrovia
parece "de verdade" — e não de uma lembrança para o álbum de família.
No entanto, alguns colegas nossos têm realizado fotos de ótima qualidade (ver CO-93/capa)
— aparentemente sem necessidade de adquirir todo o equipamento recomendado.
Compreender — e ser criativo — talvez seja mais importante do que gastar
muito dinheiro logo de cara.
O quê não usar
É ingrato tentar fotografar maquetes com uma câmara de visor paralelo
(externo), que não mostra a mesma imagem captada pela objetiva.
Pior. Em geral estas câmaras "familiares" oferecem — quando oferecem
— opções imprecisas quanto à abertura do diafragma (tipo "Nuvem",
"Meia-Nuvem", "Sol") e noções vagas quanto à distância (tipo "Busto",
"Pessoa", "Grupo-de-Pessoas", "Montanha").
É raro oferecerem qualquer opção de velocidade (abre-fecha) do
obturador.
Por fim, a lente é fixa — não pode ser trocada pelo usuário — e
não aceita acessórios como filtros, lentes de aproximação etc.
Se você usa uma câmara "familiar", leia a folha de instruções do
fabricante, para saber quais distâncias correspondem a "Busto",
"Pessoa", "Grupo-de-Pessoas" etc. — ou outros símbolos eventualmente
utilizados.
Se o fabricante não informa, procure construir uma tabela, através
de experiências práticas devidamente anotadas.
Ao fotografar sua maquete, meça a distância e regule a distância
focal de acordo com essa tabela.
Se a máquina tem "foco permanente" ou algo assim, nada resta a
fazer.
Em qualquer caso, porém, uma boa iluminação é fundamental. Dificilmente
o flash embutido resolverá sozinho.
O quê usar
O equipamento básico para fotografar maquetes é uma câmara mono-reflex
(single-lens reflex, ou SLR) de 35 mm (largura do filme).
Nestas câmaras, o prisma reflete a imagem da objetiva para o visor
— ao disparar, o visor fica "cego" por um instante, para que a imagem
atinja o filme.
O que o visor mostra, é o que a objetiva está captando — tanto
no enquadramento da cena, quanto no foco (distância) do tema principal.
A mono-reflex de 35 mm tem a vantagem da objetiva (lente tubular) ser
intercambiável (daí a sua pergunta); e oferece ampla variação na abertura
do diafragma e na velocidade do obturador.
Estas câmaras costumam vir com objetiva de 50 mm — distância da lente
ao filme — o que já permite fotos muito boas. Vai depender de alguns macetes
e pouco equipamento extra.
Por serem o tipo de câmara mais comum — sem contar as "familiares" —,
as máquinas mono-reflex de 35 mm contam com ampla gama de acessórios disponíveis
no mercado.
Nos grandes jornais costuma haver uma seção específica nos anúncios classificados
de Domingo, só para a compra e venda de câmaras e acessórios usados —
muitas vezes, em ótimo estado, pois quem usa câmaras de 35 mm costuma
tratar bem do equipamento (afinal, tem seu custo).
Aproximação
A menor distância para se obter foco com uma objetiva de 50 mm costuma
ser de 50 cm — distância até o tema fotografado — embora algumas sejam
capazes de focalizar até a 30 cm de distância.
Para se aproximar ainda mais de um modelo ou de um detalhe, você pode
usar lentes Close-Up, que se atarracham à frente da objetiva — como um
filtro — e são relativamente baratas. Existem lentes Close-Up +1, +2 e
+3. Se você só puder adquirir uma, começe pela +2.
Pode-se usar duas ou três lentes Close-Up, de uma só vez. Você deve atarrachar
primeiro a(s) de número menor.
Note que cada lente Close-Up irá reduzir um pouco a luminosidade que
chega até o filme, já que nenhum vidro é 100% translúcido.
Focalizando
A exigência seguinte que você irá enfrentar, é a chamada "profundidade
de campo" — que significa a faixa de profundidade (distância) onde
as coisas já-estão — ou ainda-estão — em foco.
Eis um exemplo, usando números fictícios:
Você focaliza a cabine de uma locomotiva, a exatos 50 cm da lente
— mas o nariz da locomotiva (a 48 cm) e parte da traseira (até 55 cm)
também aparecem nítidos na fotografia.
No entanto, os trilhos e a grama a menos de 45 cm da lente ficam
desfocados ("embaçados"); e o mesmo acontece com um prédio mais
atrás, a 60 cm, e toda a paisagem daí por diante.
Além de perder a nitidez e os detalhes da maioria da cena, a aparência
fica terrivelmente irreal.
Para obter a maior profundidade de campo possível — colocar em
foco toda a cena, se possível — você deve escolher a menor abertura
de diafragma que sua câmara puder oferecer (Fig. 1).
Profundidade de campo: – Faixa nítida (clara) onde
os detalhes já estão ou ainda estão em
foco. Na área escura, os detalhes perdem nitidez.
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Diafragma mais aberto: – Menor profundidade
de campo. Partes da cabine ficam fora de foco.
Diafragma mais fechado: – Maior profundidade
de campo. Cabine totalmente em foco.
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Profundidade de campo: – Com o diafragma mais fechado, aumenta
a faixa (clara) onde os detalhes são captados com nitidez.
Obviamente, o foco é mais perfeito no ponto exato da
distância focal (D).
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Na minha câmara, a menor abertura é f/16, mas câmaras um pouco melhores
oferecem f/22, e até f/32 — o número (divisor) segue na ordem inversa
ao tamanho da abertura.
Menos luz X mais tempo
Até aqui, tratamos de duas providências cujo efeito colateral é reduzir
a luminosidade que atinge o filme: — Acréscimo de lentes Close-Up (opcionais)
e diafragma super-fechado (essencial).
Tudo isso exigirá baixa velocidade no obturador — ou seja, ele deverá
permanecer aberto durante muito mais tempo, para a luz impressionar o
filme de modo eficaz.
Em suma: a velocidade — variável — é subordinada à abertura mínima, que
é fundamental. (Isso é o contrário do que ocorre na fotografia esportiva,
onde a velocidade do "instantâneo" é fundamental, subordinando a variação
da abertura de acordo com a luz disponível).
A regra básica é: — Menor abertura do diafragma (menor quantidade de
luz por unidade de tempo) exige maior tempo de exposição à luz. — E vice-versa.
A menor velocidade para segurar uma câmara nas mãos, sem tremer, é 1/30
segundo. Melhor é não tentar com menos de 1/60 segundo. Isso é muito pouco,
quando se usa o diafragma tão fechado — com ou sem lentes Close-Up adicionais.
Não tente compensar isso recorrendo a filmes de maior sensibilidade (tipo
ASA 400), pois a perda de qualidade é muito grande — chega a tornar indistintos
os contornos dos objetos fotografados, anulando o seu esforço para obter
um foco "nítido" dos elementos da cena.
Para compensar a perda de luminosidade, você deve recorrer a velocidades
críticas, em que o obturador permanece aberto por 1/2 segundo, 1 segundo
— e até mais de 60 segundos.
(Para tempos de mais de 1 segundo, existe a "velocidade" B, que mantém
o obturador aberto enquanto você continuar apertando o botão disparador.
Trabalha-se com um relógio, contando os segundos. Ainda não comecei a
fazer experiências desse tipo. Eliezer Magliano, por exemplo, já fez algumas
experiências).
Tempos maiores do que 1/30 segundo exigem tripé e cordão disparador —
a máquina permanece fixa, e você não encosta nela nem para disparar a
foto.
O tripé não precisa ser milionário — o importante é que tenha certa firmeza.
E pode ser de segunda mão. Esse é quase o único acessório que você pode
comprar usado — sem susto — mesmo sem ser especialista. Basta alugar o
vendedor durante 20 minutos, enquanto você testa todas as funções que
o tripé se propõe realizar — ficar em pé, fixar a máquina em diferentes
posições e alturas, apontar em vários ângulos — firmando bem em todos
os casos.
Para quem puder, recomendo o melhor. Qualidade, aqui, é sinônimo de conforto.
Tripés mais sofisticados permitem elevar e abaixar a câmara, apontar lateral
e verticalmente, de modo macio e sem esforço. Podem ser usados em filmagens
onde a câmara precisa mudar de altura ou direção com suavidade. Pense
nisso, se sua família usa bastante a filmadora.
O cordão disparador pode ser deixado para depois — se sua câmara oferecer
o disparador de retardo (mecanismo tipo relógio, feito para você correr
e também aparecer na foto).
Nos primeiros tempos, é viável usar este mecanismo para não botar a mão
— e tremer a máquina — ao bater a foto.
Iluminação
Feito isso, resta iluminar — e muito bem — a maquete.
O primeiro requisito para fotos com aspecto de "mundo real", é a dupla
iluminação — com uma só fonte de luz, você teria fotos com "sombras lunares",
totalmente pretas (Fig. 2).
Nosso mundo terrestre não é assim, por dois motivos: — (1) A atmosfera
oferece uma luz difusa, vinda de todas as direções, de modo que durante
o dia nenhuma sombra é tão negra; e (2) Nosso olho se adapta para ver
nas áreas de sombra, mesmo que ao redor reine um sol de rachar — flexibilidade
que o filme fotográfico não tem: ou se calibra para a luz intensa (e nada
se "vê" na sombra), ou se calibra para a sombra (e o resto da cena "queima"
o filme).
Para quem pode, a recomendação mais simples é meter a mão no bolso e
adquirir 2 lâmpadas especiais para estúdio fotográfico, chamadas "photoflood".
A primeira lâmpada será o "Sol" da mini-ferrovia — deve ser mais forte
(500 Watts) e ser posicionada mais perto da cena, num ângulo "solar" adequado.
Vamos imaginar que ela fique à esquerda do fotógrafo, numa altura bem
acima da maquete. Produzirá sombras visíveis.
A segunda lâmpada deve ser mais fraca (250 Watts) e barata. Deve ser
posicionada do outro lado — à direita do fotógrafo, no nosso exemplo —
e um pouco mais afastada, para que não possa gerar um segundo jogo de
sombras. Ter dois sóis seria irreal, exceto para mini-ferrovias de ficção-científica.
A função da segunda lâmpada é "preencher as sombras" com um pouco de
luz, de forma que mesmo o filme — que não tem a flexibilidade da nossa
retina — possa mostrar o quê existe na sombra de uma árvore, por exemplo
(Fig. 2).
Essa técnica de "preenchimento das sombras" foi usada por Antônio Marcello da Silva, com excelentes resultados, na foto
de capa do CO-93. Se não me engano, pelo menos uma das fontes de luz que ele usou foi uma janela.
A lâmpada photoflood já é cara, por si só. Para melhor efeito, deve ser
usada num suporte de altura variável; ter um refletor por trás (para direcionar
a luz); e poder ser apontada mais para cima ou mais para baixo, para os
lados etc.
Tudo isso tem seu preço adicional.
O suporte pode ser feito com uma boa ripa de madeira de 1,7 ou
1,8 m, e uma placa para servir de base e dar estabilidade ao conjunto.
Faça um furo retangular na placa, para inserir a ripa vertical.
Use quatro cantoneiras para fixar e firmar a ripa na placa (Fig.
3).
O refletor — aquele prato metálico atrás da lâmpada — pode ser
comprado usado. Não vale a pena improvisá-lo a partir de uma cuia
metálica qualquer.
Talvez seja melhor usar a lâmpada sem refletor nenhum — em especial,
se ela tiver a parte de trás metalizada (espelho) para ajudar a
direcionar a luz.
Luzes & luzes
Estas são recomendações simples, universais, já que nem toda maquete
pode ser levada para perto de determinada janela — dependendo da estação
do ano — ou a janela é pequena demais, para iluminar uma área considerável
da maquete.
Para um diorama ou um modelo isolado, a coisa muda de figura.
Pessoalmente, utilizo a luz do sol — com resultados bem razoáveis — para
fotografar modelos em "close" de até 1/2 corpo, como se pode ver no CO-87
(capa), onde aparece com nitidez até a poeira nos dormentes sob o vagão
Armour.
Porém, nunca obtive bons resultados ao ar livre. Se o céu está limpo,
a luz solar direta deixa a foto muito "chapada", com sombras muito escuras.
Se há nebulosidade, a luz difusa confunde contornos & detalhes do modelo
fotografado.
A melhor iluminação solar, a meu ver, encontra-se numa mesa junto a uma
janela por onde entra sol de manhã bem cedo — das 6h às 9h, no máximo.
Você tem luz direta (equivalente à primeira lâmpada) — e pouca luz difusa
(vinda de todas as direções), já que o modelo não está ao ar livre.
Então, você pode produzir sua própria luz de "preenchimento das sombras",
sob total controle seu: — Um retângulo de cartolina branca, refletindo
parte da luz solar de forma um pouco difusa, porém direcionada a seu gosto
(Fig. 4).
Se a janela está à minha esquerda, por exemplo, coloco a cartolina à
direita.
Se não é suficiente para mostrar em detalhes a face sombreada do modelo,
ao menos é o bastante para amenizar o contraste entre as áreas de luz
e sombra.
Infelizmente, minha janela só oferece luz solar direta no verão, num
curto período de 3 meses. Hoje, quando olho qualquer apartamento, a primeira
coisa que verifico é a orientação das janelas em relação à bússola, para
saber se tem bastante sol matinal o ano inteiro.
Enfim, várias formas de luz podem ser combinadas. Meu irmão fez ótimas
fotos da minha EF Pireneus-Paranã tendo a luz da janela à frente (sem
sol direto, claro) e um flash virado para cima — o teto serviu de refletor
/ difusor.
Vários colegas têm feito experiências com outras misturas. Flash fotográfico
+ luz de vídeo, por exemplo. Ou flash coberto com papel crepom, para não
dar tanto reflexo no modelo. Ainda me parece mais simples combinar a janela
com um flash virado para o teto ou a parede.
Ao calcular a luz do flash, lembre de contar 2 vezes a distância — —
do flash ao teto e/ou parede, e do teto e/ou parede até o modelo ou maquete.
Filmes & cia.
Escolhida a fonte de luz, deve-se usar o filme adequado.
Filme para luz solar não deve ser usados com luz artificial — e vice-versa
— pois a foto terá cores distorcidas.
Do mesmo modo, é difícil trocar as lâmpadas photoflood por lâmpadas comuns
— por mais fortes que sejam — devido à distorção das cores na foto.
Luz fluorescente, nem pensar!
Teoricamente, tais distorções de cor podem ser corrigidas usando filtros
adequados — ao custo de reduzir a luminosidade que atinge o filme.
Repito: — Não tente compensar a luminosidade ruim usando filmes mais
sensíveis (ASA 400, por exemplo). Devido à granulação maior, os contornos
ficam difusos, e você perde todo aquele esforço — lá no início — para
obter cenas mais vívidas e nítidas.
Também não recomendo filme P&B. A revelação / ampliação é de menor qualidade,
pois hoje todos os equipamentos automáticos são para cor — e a maioria
dos cine-fotos brasileiros não acertam, quando fazem serviço manual.
Mesmo que a publicação seja feita em P&B, a foto cujo original é colorido
apresentará melhor qualidade.
Pessoalmente, só uso Gold 100, típico para luz do dia — deu certo, e
não gosto de ficar mudando — , mas filmes de menos de 100 ASA oferecem
qualidade ainda melhor.
Algumas dicas
Há um aspecto crucial, na fotografia de maquetes e modelos com lâmpadas
photoflood: — Elas aquecem demais o ambiente, devendo ser ligadas
quando você já montou toda a cena, e já está pronto para bater determinada
foto.
É claro que você irá acendê-las várias vezes, antes disso — inclusive
para verificar o posicionamento — mas não as mantenha ligadas por muito
tempo, devido ao desgaste (são caras); e, acima de tudo, para não empenar
os modelos e kits de plástico, sensíveis ao calor.
Não vou entrar em detalhes quanto ao equilíbrio exato entre abertura
do diafragma e velocidade do obturador — eu mesmo, prefiro confiar no
fotômetro embutido na câmara, e até hoje não aprendi aquelas continhas
simples de regra-de-três. Se você preferir um fotômetro externo, logo
aprenderá a fazer as contas.
O macete de ouro é "amarrar" cada tentativa — "cercar o bicho", como
diríamos no Brasil. Se as contas mandam usar determinada velocidade, use-a!
Mas bata outras 2 fotos — uma com a velocidade imediatamente acima, e
outra com a velocidade imediatamente abaixo.
Por exemplo: — Se o fotômetro (ou suas contas) recomenda velocidade 1/15
segundo, bata uma segunda foto com 1/8, e uma terceira com 1/30 segundo.
É provável que pelo menos uma das três fotos ficará boa.
Afinal, a preparação da cena, com posicionamento da câmara, tripé, lâmpadas
e tudo mais, toma um tempo danado.
Vá anotando numa caderneta os detalhes da iluminação, a abertura e a
velocidade de cada foto — numere-as — e mais tarde compare os resultados
com as anotações. Isso é uma forma de aprender mais rápido, e a um custo
menor.
Outra regra de ouro — na minha opinião — é comprar filme de 12 quadros.
Fotografar maquetes & modelos é um longo aprendizado, e você avançará
melhor se fizer 12 fotos hoje; revelar e avaliar o resultado; bater outras
12 fotos amanhã; idem, idem; e outras 12 depois de amanhã.
O preço do filme (pelo número de fotos) é um pouco maior, mas o prejuízo
revelando 12 fotos insatisfatórias — e procurando fazer melhor amanhã
— é muito menor do que ao revelar 36 fotos de uma vez, e só então perceber
que pode fazer melhor na próxima tentativa.
Cercar o bicho, ir devagar, anotações, canja de galinha — não fazem mal
a ninguém.
A grande-angular
Lentes usadas são uma alternativa econômica, quando estiver familiarizado.
Na medida em que obtiver bons resultados — e julgar que compensa
ir mais adiante (e ainda sobrar algum troco no bolso) — poderá pesquisar
com calma uma objetiva de 28 ou 35 mm (Fig. 5).
É a chamada "grande angular" (wide-angle lens).
O fato da objetiva ser mais curta — aproximando a lente do filme
— permite captar panoramas mais amplos da mini-ferrovia, mesmo que
você não tenha espaço para fotografar de longe.
De quebra, a grande-angular dá maior profundidade à cena — e amplidão
e profundidade são exatamente o que precisamos, para fazer fotos
onde a mini-ferrovia pareça "real".
Este efeito é o contrário do provocado pela teleobjetiva, que estreita
a cena e encurta sua profundidade, fazendo um longo trem 1:1 parecer
pequeno, quando vem em direção ao fotógrafo.
Nossas maquetes já têm isso de sobra, com suas distâncias curtíssimas,
e seu segundo plano — a linha de trás — quase grudado no da frente.
Fotos HO de impacto ainda maior podem ser obtidas com uma pequena
adaptação — de preferência numa objetiva de segunda mão, cujo fotômetro
não precisa funcionar — ensinada por John Glaab na Railroad Model
Craftsman de 78/Abril, e revisada por Matt
& Bob Cosic na Model Railroader de 94/Dezembro.
O objetiva pode ser comum (50 mm) ou grande-angular (28 ou 35 mm).
Comece cortando um disco de latão de 0,1 mm, com diâmetro 50% maior do
que a abertura f/16, para evitar a entrada de luz em volta do disco.
Marque o centro exato do disco, com o compasso, formando uma pequena
depressão. Com uma lima de joalheiro vá desbastando a "covinha"
até começar a aparecer um orifício de Ø = 0,5 mm.
Vá checando o trabalho com uma broca nº 76 para obter a abertura
final.
Faça e solde ao disco 3 aros de fio de latão Ø = 0,4 mm (Fig. 6a),
que irão mantê-lo flutuando atrás da lente (íris) da objetiva, como
uma aranha no centro de sua teia (Fig. 6b).
Retire o vidro traseiro da objetiva, e teste a "aranha" no anel
metálico em frente ao vidro traseiro. O orifício deve alinhar-se
com o centro da lente.
Após lavar o latão com sabão, escureça-o com o produto adequado.
Com epóxi, fixe as pernas da "aranha" no anel metálico. Recoloque
o vidro traseiro.
Ao enquadrar a cena no visor, abra o diafragma. Verá ao redor da
aranha.
A partir daí, você terá uma abertura fixa de diafragma, equivalente
a f/96 — e uma profundidade de campo que vai de 3 cm da lente até
dezenas de metros adiante, segundo Bob Cosic.
A exposição fica entre 11 e 16 segundos, dependendo da iluminação
— no caso, um coquetel de lâmpadas, spots etc.
O resultado das fotos — a matéria de capa
da MR-94/Dez — é a impressão de que você está dentro de uma
enorme estação, com pesadas estruturas metálicas acima de sua cabeça,
prédios gigantescos ao fundo, e verdadeiras locomotivas prontas
para esmagá-lo.
Naturalmente, é preciso situar a câmara — aliás, o centro da lente —
na altura exata em que estariam os olhos de um habitante HO da mini-ferrovia.
Tudo — do nariz da loco até os posters — está em foco, ainda que o autor
admita tratar-se de um foco não tão perfeito quanto o obtido com equipamento
fotográfico regular de fábrica.
Matt experimentou exposições de 10 a 20 segundos de duração, em intervalos
crescentes de 2 segundos, até obter os tempos exatos. Na dúvida, cercou
o bicho com 3 tempos em cada tomada (adiante).
Diz que o filme Fujichrome 64 ASA Tungstênio balanceado dá cores melhores
em longas exposições.
O sol na cabeça
Quer você use lâmpadas photoflood ou janela solar, tenha na mente a milenar
sabedoria do Tao: — É a escuridão que permite ver a luz.
Numa superfície totalmente amarela e iluminada pelo sol direto — como o vagão
frigorífico Armour (CO-87/capa) — são as reentrâncias sombreadas que permitem distinguir todos os detalhes da lateral do vagão, tais como a
escada, as dobradiças e o trinco da porta.
Se desde pequeno você aprendeu que — nas fotos de família — o sol deve estar atrás do fotógrafo (e na cara das vítimas), simplesmente... esqueça!
Na foto do frigo Armour, ninguém veria nenhum detalhe do vagão, do truque
ou das rodas, por pura falta de contraste luz / sombra.
O mesmo se aplica às fotos dos carros e vagões do José Augusto Neto,
publicadas em P&B no CO-86/18.
Em todas as melhores fotos de modelos HO que já consegui fazer, o sol
sempre esteve francamente à esquerda (sou destro), em ângulo quase paralelo
à superfície fotografada — digamos, 10 a 15 graus, no máximo.
Em fotos de protótipos, chego a obter melhores
resultados com o sol à frente e à esquerda (ou à direita), num ângulo
de mais de 90 graus com a linha que vai da câmara ao protótipo. Um exemplo
de sol à frente e de lado, é a foto de Nilson Rodrigues na capa do CO-83,
mostrando em relevo de luz
& sombra os detalhes do teto da GP-9L. Infelizmente, a gráfica estragou
muito a qualidade daquela foto.
Não podemos girar os trilhos com uma loco 1:1 — nem mudar o trajeto do
sol. Mas ir a um pátio ferroviário com sol alto, é programa de masoquista!
Tudo o que você encontrar lá, será sofrimento. Chega uma bela locomotiva
— e irá embora muito antes do sol abaixar de novo. É melhor ir de manhã
bem cedo (das 7h às 9h); e voltar no final da tarde (16h às 18h). O que
cair na rede é peixe — com os truques e detalhes de freio devidamente
iluminados.
Prefira trechos ferroviários onde o sol matinal ou vespertino possa alcançar
os truques — e cuja via faça um ângulo favorável com a luz solar.
Palco & enfoque
Uma providência essencial, quando se deseja boas fotos, é fazer com que
o leitor "entre" na mini-ferrovia. Fotos amplas podem dar uma idéia geral
da maquete — mas impacto & realismo se obtêm "entrando" numa pequena cena,
e tornando-a enorme, como o mundo 1:1.
Paredes nuas ao fundo, são um pecado capital. Mesmo o painel fixo na
parede — excelente ao vivo e a cores — pode produzir resultados irreais,
já que não acompanham as andanças da câmara.
Se mostram prédios vistos da direita, ficarão horríveis quando a foto
for tirada da esquerda. Neste caso, a falta de um enorme painel fixo em
sua maquete, pode até ser uma vantagem. Você usa um poster mais modesto,
que possa ser colocado na posição correta, atrás da pequena cena a ser
fotografada.
Basta pouca coisa, para esconder a junção entre o poster o o "chão" da
maquete — e que em geral foge ao campo de visão de um "habitante" HO.
Uma das grandes falhas em foto-hobby, é situar a câmara acima do "habitante"
da maquete. O realismo cai muito.
O mesmo pode ser feito quando se fotografa um modelo isolado.
Caso não haja profundidade de campo para manter o fundo dentro
de foco, a melhor alternativa é fotografar o modelo sobre uma cartolina
azul, não muito clara. Obtém-se o efeito de "fundo infinito", que
não exige foco, e pelo menos não compromete tanto a foto quanto
a visão de uma parede, mesa etc.
A cartolina do "fundo infinito" pode ser fixada a uma parede com
fita crepe, e apoiar-se sobre uma mesa encostada a ela, fazendo
uma curva — o que evita a dobra em ângulo reto (Fig. 4).
Equipe técnica
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