Centro-Oeste - Trens, ferrovias e ferreomodelismo
Ferrovias | Mapas | Estações | Locomotivas | Diesel | Vapor | Elétricas | Carros | Vagões | Trilhos Urbanos | Turismo | Ferreomodelismo | Maquetes ferroviárias | História do hobby | Iniciantes | Ferreosfera | Livros | Documentação | Links | Atualizações | Byteria | Mboabas | Brasília | Home
  
   
   
 

As ferrovias de São Paulo - 1870-1940

Flávio Azevedo Marques de Saes
Editora Hucitec / INL, São Paulo, 1981

Prefácio

Coube a um jovem historiador e economista, um estreante em pesquisa histórica, o exame de algumas questões sobre o comportamento de três ferrovias paulistas, para iluminá-las com nova reflexão, e enriquecer, com pesquisa original, a visão dos problemas e perspectivas com respeito ao transporte ferroviário.

O assunto, as ferrovias, é um clássico na bibliografia histórica brasileira. De um lado, dispomos das obras de Ribeiro Pessoa Júnior, Chrockatt de Sá, Pereira da Silva, Adolfo P. Pinto, Palmanho de Jesus, entre outros, que deram ordem ao amontoado de fatos, em sistematização e síntese descritivas e cronológicas. De outro, estão as análises de fecunda contribuição interpretativa quanto aos fatores do meio físico, social e econômico, nos quais se compõem a atividade ferroviária, sema em trabalhos especializados como os de Duncan ou Nogueira de Matos, ou as perspectivas mais abrangentes, como as de Monbeig, Ribeiro de Araújo, Sunkel. Outros autores, como Cipollari, trouxeram para o campo de análise a visão do economista, interessado especialmente em compreender os fenômenos do declínio e dos déficits operacionais das ferrovias, com base nos princípios teóricos da Ciência Econômica. O histórico de uma via, em particular, realizado, entre ouros, por Fernando de Azevedo, por Debes, além do interesse que merece o assunto por si próprio, proporciona a exemplificação aproximativa de alguns problemas mais gerais, comuns às estradas de ferro.

No momento presente, no qual os problemas de transporte suscitados pela questão da energia, colocam-se acaloradamente dentre as mais vivas preocupações nacionais, Flávio Azevedo marques de Saes, com sua tese de mestrado, nos proporciona uma análise muito densa sobre o funcionamento das ferrovias, no contexto das condições da economia paulista e na dinâmica do tempo, sob perspectiva histórica. Uma análise original, que busca, infatigavelmente, esclarecer a trilha de vivência percorrida no tempo pelas ferrovias, com o objetivo de responder às perguntas cruciais sobre o declínio do transporte ferroviário, após um passado de prosperidade. Concentrou-se em três vias importantes - a Paulista, a Mogiana e a Sorocabana, as quais, em 1892, abrangiam 73% da rede ferroviária do Estado. Partiu da década dos 70 do século passado, marco cronológico do estabelecimento daquelas vias, e encerrou em 1940, com a Segunda Guerra Mundial. Entre estes dois momentos, a motivar o historiador, está o processo dinâmico que se desenvolve entre a conquista do Oeste paulista, favorecida pelos trilhos de ferro, e o reconhecido declínio do transporte ferroviário.

Velhas afirmações foram revigoradas, outras não resistiram à objetividade com que foram novamente testadas. A importância do café é uma constante na compreensão de todo o processo, ainda que varie, no tempo, sua conotação. Consagrou-se, mais uma vez, neste estudo, a conhecida afirmação que qualifica as ferrovias paulistas como "estradas do café", seja pelos interesses dos produtores e comerciantes que orientaram suas diretrizes, seja pela importância do produto no tráfego, a condicionar estreitamente sua rentabilidade.

Tais são, contudo, reconhecimentos introdutórios para chegar ao trato do âmago do problema central, a rentabilidade, como categoria explicativa da prosperidade e do declínio. Ambos passam a ser inventariados, sob outra perspectiva, a dos fluxos de transportes, em correlação com os desenvolvimentos da economia paulista, e o nível das tarifas. Observadas a funcionar como elementos do sistema econômico, como um todo, as ferrovias revelam grande sensibilidade com respeito às flutuações que identificam as fases de prosperidade e de recessão. Análises de fluxos e de tarifas que novamente confirmam a importância do (pág. 9) café; crises do café, que não desestimularam o crescimento de suas culturas que as ferrovias impulsionam.

Outro fator, externo a este processo, é posto em evidência. A taxa de câmbio, de fundamental importância, é um dos principais elementos que (instrui?) um marco cronológico, estabelecido pelo Autor, no processo histórico das ferrovias paulistas, como um divisor de águas - a década de 90. Nos primeiros vinte anos da implantação e funcionamento das ferrovias, coexistia perfeita solidariedade entre o mercado cafeeiro e a prosperidade ferroviária, que se comprova pela proporcionalidade entre os dividendos e o montante transportado em toneladas de café. A partir da década dos 90, a violenta queda da taxa cambial, o processo inflacionário desde os primeiros anos da República, repercutem intensamente sobre as ferrovias, ao mesmo tempo em que se tornam mais vulneráveis ao caráter cíclico do mercado cafeeiro. Estabelece-se, deste modo, nos anos 90, nítida contradição entre os interesses dos produtores de café, que se favoreciam com o aumento do preço do produto no mercado interno, provocado pela desvalorização da moeda, e os interesses das empresas ferroviárias, pesadamente oneradas pelo maior custo do material importado, indispensável à sua atividade, pelo serviço de dívida no exterior, com a elevação dos salários sob a pressão inflacionária. Ainda que significadamente cresça - a Sorocabana também se torna uma ferrovia do café - ao volume de mercadorias transportadas não se pode mais atribuir o sentido subjacentes de prosperidade estável.

A década dos 90, um momento histórico à atenção dos pesquisadores, se, por um lado, acumulou, na sua problemática, circunstâncias transitórias, por outro levou a uma percepção mais aguda das singularidades que presidiram à implantação e desenvolvimento das ferrovias, em desvio aos padrões ordinários, para servir a uma economia periférica, estreitamente vinculada ao produto de exportação, com o mercado interno insuficiente para lhe dar apoio, sem cargas de retorno do porto de destino, e que se revelou também carente de fontes internas de poupança para financiar os prolongamentos e a modernização. Talvez em conseqüência, desde 1910 o catálogo dos acionistas acusa a participação crescente de grupos estrangeiros.

Sob outro aspecto, nos anos 90, o emergir da consciência quanto à necessidade de diversificar a economia, à qual vinha servir o próprio desenvolvimento ferroviário, significava novos rumos para a economia paulista, tímidos a princípio, a desabrochar plenamente no ano 30. Contudo, na década dos 90 encerrava-se o período áureo da rentabilidade das ferrovias.

Em face desse quadro, da complexidade dos problemas que afetam as ferrovias, o Autor reavalia o velho chavão de ineficiência dessas empresas, quando associadas à administração estatal, apontadas, de ordinário, como representativas de uma política de desperdício e dilapidação. A análise da despesa e da eficiência operacional das ferrovias estudadas mostrou que vários fatores que elevam a despesa situam-se fora do controle por parte de sua administração, e nem a pecha do empreguismo se ajusta à evidência dos dados com respeito à Sorocabana, única ferrovia do Estado, no período. De modo geral, a ferrovia cronicamente deficitária, em declínio, somente pode manter-se sob a tutela do Estado. o papel social da via de comunicação não pode ser negligenciado.

Estes delineamentos marcam alguns dos principais caminhos percorridos pelo Autor, no estudo dos fatores condicionantes do declínio do transporte ferroviário. Situamo-nos no plano das idéias gerais; contudo, um dos característicos metodológicos que distinguem este trabalho, é justamente o esforço para trazer à investigação todos os elementos que chegam ao nível da máquina administrativa, desde que se considerem significativos para o diagnóstico do desempenho da empresa, observados dentro do processo histórico. Grande parte da evidência empírica consta dos relatórios das estradas de ferro, um conjunto expressivo de 212 peças documentais. A massa de dados quantitativos foi enriquecida com elementos hauridos em outras fontes, e pacientemente sistematizada em tabelas e vários quadros, que constituem parte muito importante do embasamento de toda a argumentação. Esta intimidade estatística permitiu a observação de vários problemas, em sua variação no tempo, subjacentes no processo histórico, elementos sempre referenciais em estudos sobre ferrovias, que (pág. 11) ainda não haviam sido objeto de análises mais pormenorizadas.

Contudo, o Autor não é um singelo arquiteto de tabelas. É de se notar a pertinácia com que investiga os números, a interrogar a natureza dos fatos que as cifras qualificam, as variações de sua importância no tempo, como reflexos do amplo processo histórico. O número não sobreleva a palavra: depoimentos, correntes de opinião, debates e análises coevas, se entretecem com os estudos dos autores precedentes, e dão equilíbrio ao material nutriente utilizado.

A exposição conduz o leitor, num fio lógico, às proposições e hipóteses anunciadas em seqüência, cada uma estudada sob vários ângulos, e, esgotada a argumentação, torna-se o fundamento e o elo com referência às seguintes. Trata-se de uma tese, não simplesmente de uma monografia, no sentido de que se estrutura com o comando da comprovação, sempre presente. Esta percorre cada argumento, conferindo ao todo grande solidez. Nada foi lançado ao acaso, nenhuma generalização é fortuita. O raciocínio é límpido, incisivo, tranqüilo na sua força; o estilo agradável e escorreito, a linguagem simples e concreta.

Trabalho de um estreante, dissemos de início, de cuja referência, novos estudos sobre ferrovias não poderão prescindir. Um estreante que surpreende pela maturidade intelectual e se revela admiravelmente bem dotado, com invulgar capacidade para a investigação inteligente no campo da História.

Alice Piffer Canabrava
Novembro, 1979

   

Bibliografia

• A Gretoeste: a história da rede ferroviária GWBR - 25 Abr. 2016

• Índice das revistas Centro-Oeste (1984-1995) - 13 Set. 2015

• Tudo é passageiro - 16 Jul. 2015

• The tramways of Brazil - 22 Mar. 2015

• História do transporte urbano no Brasil - 19 Mar. 2015

• Regulamento de Circulação de Trens da CPEF (1951) - 14 Jan. 2015

• Batalhão Mauá: uma história de grandes feitos - 1º Dez. 2014

• Caminhos de ferro do Rio Grande do Sul - 20 Nov. 2014

• A Era Diesel na EF Central do Brasil - 13 Mar. 2014

• Guia Geral das Estradas de Ferro - 1960 - 13 Fev. 2014

• Sistema ferroviário do Brasil - 1982 - 12 Fev. 2014

  

Ferreofotos

• Alco RSD8 Fepasa - 29 Fev. 2016

• G12 200 Acesita - 22 Fev. 2016

• “Híbrida” GE244 RVPSC - 21 Fev. 2016

• U23C modernizadas C30-7MP - 17 Fev. 2016

• C36ME MRS | em BH | Ferronorte - 14 Fev. 2016

• Carregamento de blocos de granito na SR6 RFFSA (1994) - 7 Fev. 2016

• G12 4103-6N SR6 RFFSA - 6 Fev. 2016

• Toshiba nº 14 DNPVN em Rio Grande - 25 Jan. 2016

• Encarrilamento dos trens do Metrô de Salvador (2010) - 14 Nov. 2015

• Incêndio de vagões tanque em Mogi Mirim (1991) - 9 Nov. 2015

• Trem Húngaro nas oficinas RFFSA Porto Alegre (~1976) - 21 Out. 2015

  

Ferrovias

Os “antigos” trens turísticos a vapor da RFFSA - 21 Nov. 2016

• Estação de Cachoeiro de Itapemirim | Pátio ferroviário (1994) - 28 Fev. 2016

• Caboose, vagões de amônia e locomotivas da SR7 em Alagoinhas (1991) - 25 Fev. 2016

• Locomotivas U23C modificadas para U23CA e U23CE (Numeração e variações) - 17 Fev. 2016

• A chegada da ponta dos trilhos a Brasília (1967) - 4 Fev. 2016

• Livro “Memória histórica da EFCB” - 7 Jan. 2016

• G8 4066 FCA no trem turístico Ouro Preto - Mariana (Girador | Percurso) - 26 Dez. 2015

• Fontes e fotos sobre a locomotiva GMDH1 - 18 Dez. 2015

• Locomotivas Alco RS no Brasil - 11 Dez. 2015

Publicações da história do ferreomodelismo brasileiro
Manual Atma CA | Manual Atma CC | Sport Modelismo | EFOM | Informativo Frateschi | Apontamentos
Ferrovias para você construir | Estatutos da SBF | Catálogos Frateschi | Esporte Modelismo | Centro-Oeste
Catálogo Miniaturas Artesanais | Catálogo Model / Hobbylândia | Catálogo History | Ferrovia | Revista Ferroviária
Revista Brasileira de Ferreomodelismo | Informativo AFRJ | Escala Dupla | Escala UMM | Composição
Dormente de Ferro | Taipin | Dormente de Ferro | Trem de Ferro | SD40-2 | Jornal do Ferreomodelista
Guindastes ferroviários no Brasil | ABC do Ferreomodelismo | Como divulgar o hobby?
Publicações marcam períodos de expansão | Centro-Oeste inaugura sua tipografia eletrônica | Publicações listadas até 1991

Busca no site
  
       
Ferrovias | Mapas | Estações | Locomotivas | Diesel | Vapor | Elétricas | Carros | Vagões | Trilhos Urbanos | Turismo | Ferreomodelismo | Maquetes ferroviárias | História do hobby | Iniciantes | Ferreosfera | Livros | Documentação | Links | Atualizações | Byteria | Mboabas | Brasília | Home
Sobre o site Centro-Oeste | Contato | Publicidade | Política de privacidade