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Estrada de Ferro D. Pedro II
Estrada de Ferro Central do Brasil
A belle-époque
dos "subúrbios da Central"


 
Trechos fichados da tese
"Entre a Vila Quilombo e a Avenida Central: ..."
de Celi Silva Gomes de Freitas

p. 66

A denominação "Vila Quilombo" é própria de Lima Barreto, e apareceu na crônica "Bailes e Divertimentos Suburbanos", publicada originalmente na Gazeta de Notícias, em 7 de fevereiro de 1922:

(...)

Situada no subúrbio carioca de Todos os Santos, a "modesta residência" foi nomeada "Vila Quilombo" e, desse modo, Lima Barreto rememorou, no espaço-tempo da república pós-abolição, (...), no qual se distinguia o subúrbio como um dos espaços destinados pela ordem republicana a afastar os indesejáveis do palco da modernidade.

p. 67

Embora fosse um bairro novo e pouco habitado, Copacabana era considerado uma "área nobre" e, por essa razão, seu saneamento mereceu investimentos expressivos e atenção especial na administração Serzedelo Correa (1909-1910) . A meio caminho entre as Freguesias Suburbanas do Engenho Novo, do Méier e de Inhaúma, o bairro de Todos os Santos, de moradia de Lima Barreto, apesar de mais antigo e mais populoso do que Copacabana, não fez jus aos melhoramentos que o centro e o lado sul da cidade usufruíram.

Lima Barreto registrou a continuidade dessa mesma postura também na administrações Paulo de Frontin e Carlos Sampaio:

O senhor doutor Carlos Sampaio é um excelente prefeito, melhor do que ele só o Senhor de Frontin. Eu sou habitante da cidade do Rio de Janeiro, e, até, nela nasci; mas, apesar disso não sinto quase a ação administrativa de Sua Excelência. (...)

Vê-se bem que a principal preocupação do atual governador do Rio de Janeiro é dividi- lo em duas cidades: uma será a européia e a outra, a indígena.

p. 68

É isto que se faz ou se fez na Índia, na China, em Java, etc.; e em geral, nos países conquistados e habitados por gente mais ou menos amarela ou negra. (...)

Todo o dia, pela manhã, quando vou dar o meu passeio filosófico e higiênico, pelos arredores da minha casa suburbana, tropeço nos caldeirões da rua principal da localidade de minha residência, rua essa que foi calçada há bem cinqüenta anos, a pedregulhos respeitáveis.

Lembro-me dos silhares dos caminhos romanos e do asfalto com que a prefeitura Municipal está cobrindo os areais desertos de Copacabana.

Em "O Prefeito e o Povo", Lima Barreto estabeleceu desde o título uma distinção entre, de um lado, o governo e as ações governamentais, e de outro lado, o povo e suas necessidades. (...) entre a "européia" Copacabana, bem atendida pela prefeitura municipal, e a "indígena" Todos os Santos, abandonada pelo poder municipal. (...)

(...) Em outros artigos e crônicas, observamos que Lima Barreto protestou insistentemente contra a escolha, em todas as instâncias, de representantes da cidade do Rio de Janeiro que não eram "cariocas da gema" como ele e que apenas a conheciam superficialmente.

p. 69

Ao dizer que, em seus passeios matinais, tropeçava "nos caldeirões da rua principal da localidade de minha [sua] residência", Lima Barreto se referia à rua José Bonifácio, que ligava e ainda liga a antiga estrada Real de Santa Cruz à atual rua Arquias Cordeiro, que margeia a linha férrea da Central do Brasil. Em outras crônicas, a referência ao péssimo estado de conservação do calçamento desta artéria, na época considerada a principal do bairro de Todos os Santos, resultou em escritos com toques de "humor macabro", como os excelentes "Os Enterros de Inhaúma" e "Queixa de Defunto".

Nos "Apontamentos para o Indicador do Distrito Federal", de 1901, o historiador e "maior amigo de Lima Barreto" Noronha Santos listou oito estações de parada da Estrada de Ferro Central do Brasil localizadas no território da Freguesia do Engenho Novo. Dentre essas estações, inauguradas no período compreendido entre março de 1858 e agosto de 1889, havia a de Todos os Santos, cuja data de inauguração é objeto de controvérsias: em 24 ou 27 de dezembro de 1868, ou ainda em 24 de janeiro de 1868. Tanto quanto a estação do "Meyer", Todos os Santos situava-se em terras das fazendas anteriormente pertencentes à família de Joaquim Meyer.

p. 70

Em artigo datado de 1904 sobre a ocupação dos subúrbios do Rio de Janeiro, Aureliano Portugal pensou o espaço do subúrbio integrado ao espaço urbano:

A continuidade da cidade propriamente dita é tal que, em grande parte, se torna impossível estabelecer limites entre as paróquias urbanas e as chamadas suburbanas. (...)

Estes subúrbios não têm existência própria, independente do Centro da cidade, pelo contrário a sua vida é comum, as suas relações íntimas e freqüentes; é a mesma população que moureja, no centro comercial da cidade, com a que reside neste, sendo naturalmente impossível separá-las.

p. 71

Embora a inauguração do trecho inicial da pioneira Estrada de Ferro Dom Pedro II, bem como das estações de Cascadura e Engenho Novo, datasse de 1858, Aureliano Portugal caracterizou o espaço suburbano como simples dormitório, na primeira década do século XX. De fato, no Recenseamento de 1890, as "Freguesias do Rio de Janeiro" se subdividiam em "Freguesias Urbanas" e "Freguesias Rurais", não se fazendo qualquer menção a "subúrbios". Somente no Recenseamento de 1920 a divisão entre "Freguesias Urbanas" e "Freguesias Suburbanas" apareceu em tabela, ressalvando-se que o Méier e o Engenho Novo faziam parte do segundo grupo, juntamente com São Cristóvão, Inhaúma e Irajá.

p. 74

Em diversas passagens, Lima Barreto observou e relatou situações nas quais as distinções entre o subúrbio republicano e a belle époque tropical se reproduziam nos cenários, nos gestos e nas atitudes da população:

Embarco em Cascadura. É de manhã. O bonde se enche de moças de todas as cores com os vestuários de todas as cores. Vou ocupar o banco da frente, junto ao motorneiro. Quem é ele? É o mais popular da linha. É o "titio Arrelia" ­ um crioulo forte, espadaúdo, feio, mas simpático. Ele vai manobrando as manivelas e deitando pilhérias, para um lado e para o outro.

p. 75

Entre o subúrbio de Cascadura e a livraria Garnier, havia uma distância física que exigia um grande investimento de tempo para ser percorrida. No bonde, Lima Barreto buscou relacionar as distinções entre os espaços e os tempos da Vila Quilombo e da Avenida Central:

(...) Ele [o Cascadura-Garnier] percorre uma parte da cidade que até agora era completamente desconhecida. Em grande trecho, prelustra a velha Estrada Real de Santa Cruz que até bem pouco vivia esquecida.

Entretanto, essa trilha lamacenta que, preguiçosamente, a Prefeitura Municipal vai melhorando, viu carruagens de reis, de príncipes e imperadores. Veio a estrada de ferro e matou-a, como diz o povo. Assim aconteceu com Inhomirim, Estrela e outros "portos" do fundo da baía. A Light, porém, com o seu bonde de "Cascadura" descobriu-a de novo e hoje, por ela toda, há um sopro de renascimento, uma palpitação de vida urbana, embora os bacorinhos, a fossar a lama, e as cabras, a pastar pelas suas margens, ainda lhe dêem muito do seu primitivo ar rural de antanho.

p. 76

(...) três temporalidades distintas. Antes do trem, quando predominava um tempo "de antanho", um tempo do Império de "carruagens", um tempo esquecido, um tempo de "primitivo ar rural" que Lima Barreto evocou com certa nostalgia. Depois do trem, quando "a estrada de ferro" veio e "matou" não só os "portos" do fundo da baía" de Guanabara como aquele caminho da "Estrada Real de Santa Cruz" que, mais tarde, seria denominado "Avenida Suburbana". Mas o advento do bonde trouxe a modernidade para a Vila Quilombo, trouxe "um sopro de renascimento", trouxe o novo, trouxe "uma palpitação de vida urbana".

No uso do advérbio "preguiçosamente", Lima Barreto criticou o modo pelo qual a Prefeitura Municipal realizou as melhorias naquela "trilha lamacenta", certamente porque não se tratava de reformar o espaço-tempo da Avenida Central. A modernidade, portanto, entrava apenas como "um sopro" ou "uma palpitação" no espaço-tempo da Vila Quilombo:

Mas... o bonde Cascadura corre; "titio Arrelia", manejando o controle, vai deitando pilhérias, para a direita e para a esquerda; ele já não se contenta com o tímpano; assovia como os cocheiros dos tempos dos bondes de burro; e eu vejo delinear-se uma nova e irregular cidade, por aqueles capinzais que já foram canaviais; contemplo aquelas velhas casas de fazenda que se erguem no cimo das meias-laranjas; e penso no passado.

No passado! Mas... o passado é um veneno.

Os costumes tradicionais, a decadência das fazendas coloniais de cana-de-açúcar, a "nova e irregular" paisagem de uma sub-urbe onde os "canaviais" foram substituídos pelos "capinzais", tudo isso compunha a Vila Quilombo (...) e o relato explicitou um deslocamento no instante em que o bonde chegou à fronteira entre a Vila Quilombo e a Avenida Central:

p. 77

Fujo dele [do passado], de pensar nele e o bonde entra com toda a força na embocadura do Mangue. A usina de gás fica ali e olho aquelas chaminés, aqueles guindastes, aquele amontoado de carvão de pedra. Mais adiante, meus olhos topam com medas de manganês...

O Mangue representava a "fronteira" (...). Ao deslocar-se, Lima Barreto flagrou a travessia do "titio Arrelia" que, ao sair de um espaço da sub-urbe afastada para ingressar no espaço da urbe "civilizada", mudou de postura:

E o bonde corre, mas "titio Arrelia" não diz mais pilhérias, nem assovia. Limita-se muito civilizadamente a tanger o tímpano regulamentar. Estamos em pleno Mangue, cujas palmeiras farfalham mansamente, sob um céu ingratamente nevoento. Estamos no Largo de São Francisco. Desço.

(...) Aos modestos "capinzais que já foram canaviais" da Vila Quilombo, a Avenida Central contrapunha as esbeltas palmeiras farfalhantes.

p. 84

Ultimamente, na esquina, veio ao meu encontro um homem com quem conversei alguns minutos. Ele me contou a sua desdita com todo o vagar de popular.

(...)

Este ano foi particularmente abundante em laranjas e o nosso homem teve a feliz idéia de vendê- las. Vendo, porém, que os compradores na porta não lhe davam o preço devido, tratou de valorizar o produto, mas sem empréstimo a 30%.

Comprou um cesto, encheu-o de laranjas e saiu a gritar:

-Vai laranja boa! Uma a vintém!

Foi feliz e pelo caminho apurou uns dois mil-réis.

Quando, porém, chegou a Todos os Santos, saiu-lhe ao encontro a lei, na pessoa de um guarda municipal:

-Quedê a licença!

Que licença?

-Já sei, intimou o guarda. Você é "moambeiro". Vamos para a agência.

Tomaram-lhe o cesto, as laranjas, o dinheiro e, a muito custo, deixaram-no com a roupa do corpo.

Eis aí como se protege a pomicultura.

p. 85

(...) para evidenciar que a intervenção do poder público se fazia contra o povo, (...) na crônica "O Prefeito e o Povo", que prosseguimos analisando:

De resto, municipalidade supõe-se ser, segundo a origem, um governo popular que cuide de atender, em primeiro lugar, ao interesse comum dos habitantes da cidade (comuna) e favorecer o mais possível a vida da gente pobre. (...)

Municipalidades de todo o mundo constróem casas populares; a nossa, construindo hotéis chics, espera que, à vista do exemplo, os habitantes da Favela e do Salgueiro modifiquem o estilo das suas barracas. Pode ser...

O senhor Sampaio também tem se preocupado muito com o plano de viação geral da cidade.

Quem quiser, pode ir comodamente de automóvel da avenida à Angra dos Reis, passando por Botafogo e Copacabana; mas, ninguém será capaz de ir de cavalo do Jacaré à Irajá.

O termo "Favela" ainda não se popularizara e nomeava apenas os barracos do Morro da Providência que, localizado nas proximidades da Praça Onze, abrigou, de início, "os soldados do Coronel Moreira César e do General Artur Oscar" de regresso das expedições em Canudos contra Antônio Conselheiro.

p. 86

Na República Velha e a partir da reforma Pereira Passos, excetuando-se as freguesias urbanas centrais, houve aumento considerável da densidade demográfica nos espaços urbano e suburbano do Rio de Janeiro, para atender ao novo desenho de base capitalista da Capital Federal. Paralelamente a essas transformações na ocupação do espaço, os meios de locomoção da população precisaram se modificar, e o trem tornou-se o principal modo de transporte coletivo para a massa crescente de habitantes dos subúrbios cariocas.

Como usuário habitual dos trens suburbanos, em suas viagens de ida e volta entre a estação de Todos os Santos e a Central do Brasil, Lima Barreto era observador atento e sempre disposto a recolher nesse trajeto boa parte da matéria-prima para seus escritos sobre a "vida dos subúrbios":

p. 87

As conversas de trem são quase sempre interessantes. A mania dos suburbanos é discutir o merecimento deste subúrbio em face daquele. Um morador de Riachuelo não pode admitir que se o confunda com um do Encantado e muito menos com qualquer do Engenho de Dentro.

Os habitantes de Todos os Santos julgam a sua estação excelente por ser pacata e sossegada, mas os do Méier acusam os de Todos os Santos de irem para o seu bairro tirar-lhe o sossego.

Marcada pelo sentimento bairrista, a rivalidade entre os habitantes dos subúrbios explicitava a existência de fronteiras que demarcavam os logradouros que se constituíram, na seqüência citada, em torno de quatro estações da linha ferroviária da Central do Brasil: Riachuelo, Méier, Todos os Santos e Engenho de Dentro. Como as viagens de trem obrigatoriamente começavam e terminavam nas estações ferroviárias, estas também foram assunto dos relatos de Lima Barreto:

Na vida dos subúrbios, a estação da estrada de ferro representa um grande papel: é o centro, é o eixo dessa vida.

Antigamente, quando ainda não havia por aquelas bandas jardins e cinemas, era o lugar predileto para os passeios domingueiros das meninas casadouras da localidade e dos rapazes que querem casar, com vontade ou sem ela.

Hoje mesmo, a gare suburbana não perdeu de todo essa feição de ponto de recreio, de encontro e conversa. Há algumas que ainda a mantém tenazmente, como Cascadura, Madureira e outras mais afastadas.

p. 88

(...) Além de lugar de encontro para os moradores, a estação de trem também era pólo aglutinador da atividade comercial:

De resto, é em torno da "estação" que se aglomeram as principais casas de comércio do respectivo subúrbio. Nas suas proximidades, abrem-se os armazéns de comestíveis mais sortidos, os armarinhos, as farmácias, os açougues e ­ é preciso não esquecer ­ a característica e inolvidável quitanda.

Nessa primeira enumeração dos estabelecimentos comerciais da época predominam os que atendiam às necessidades básicas; a lista foi enriquecida com a ênfase dada à quitanda que, assim, ganhou "ares" de maior importância, destacando-se dos demais negócios:

O Méier é o ponto inicial de quatro linhas de bondes, uma até de grande extensão, a de Inhaúma, e outra que leva à Boca do Mato, lugar pitoresco, que já teve fama de possuir bons ares, para curar "moléstias do peito", como diz o povo.

Além das quatro de que falei, três linhas, vindas do centro da cidade, passam por esta localidade, de modo que a impressão que dá não é bem de um subúrbio, mas de uma cidade média. (...)

É o Méier o orgulho dos subúrbios e dos suburbanos. Tem confeitarias decentes, botequins freqüentados; tem padarias que fabricam pães, estimados e procurados; tem dois cinemas, um dos quais funciona em casa edificada adrede; tem um circo-teatro, tosco, mas tem; tem casas de jogo patenteadas e garantidas pela virtude, nunca posta em dúvida, do Estado, e tem boêmios, um tanto de segunda mão; e outras perfeições urbanas, quer honestas, quer desonestas.

p. 90

(...) A "estação" é verdadeira e caracteristicamente suburbana, na segunda metade da manhã, principalmente das nove às onze horas. São as horas em que descem os empregados públicos, os pequenos advogados e gente que tal.

Nessa última seqüência citada da crônica "A Estação", observamos que Lima Barreto expandiu a lista de estabelecimentos comerciais, acrescentando as lojas de modas em geral à primeira relação de lojas mais simples, que negociavam artigos de primeira necessidade como alimentos, remédios e pequenos aviamentos. Nesse ponto da enunciação, Barreto passou a tratar das "gentes", segundo ele "o aspecto mais interessante da `estação" e, também, do trem:

A segunda classe dos nossos vagões de trens de subúrbios não é assim tão homogênea. Falta- nos, para sentir a amargura do destino, profundeza de sentimentos. Um soldado de polícia que nela viaja não se sente diminuído na sua vida; ao contrário; julga-se grande coisa, por ser polícia; um guarda civil é uma coisa importante; um servente de secretaria vê Sua Excelência todos os dias e, por isso, está satisfeito; e todos eles, embora humildes, encontram na sua estreiteza de inteligência e fraqueza de sentir motivos para não se julgarem de todo infelizes e sofredores. Só alguns e, em geral, operários é que esmaltam no rosto angústia desânimo.

p. 91

Como meio de transporte mas igualmente espaço de convivência, no trem se estabeleciam as relações entre o espaço suburbano e a belle époque carioca. Em "O Trem de Subúrbios", Lima Barreto estabeleceu uma ponte com uma imagem de um carro de segunda classe de um trem francês, que vira "em um álbum de desenhos de Daumier" e que desde então muito o impressionara, particularmente pela "ambiência que envolve todas as figuras e a estampa registra, ambiência de resignação perante a miséria, o sofrimento e a opressão que o trabalho árduo e pouco remunerador traz às almas." Na situação do nosso trem suburbano, Lima Barreto distinguiu os operários dos demais passageiros, como os únicos que revelavam a mesma grandeza das figuras do desenho francês:

(...) a indumentária variegada merecia que um lápis hábil a registrasse. Aquelas crioulas e mulatas inteiramente de branco, branco vestido, meias, sapatos, ao lado de portugueses ainda com restos de vestuários da terra natal; os uniformes de cáqui de várias corporações; os em mangas de camisas e algum exótico jaquetão de inverno europeu, acompanhado do indefectível cachimbo ­ tudo isso forma um conjunto digno de um lápis ou de um pincel.

p. 92

(...) Em língua escrita, Lima Barreto pintou um quadro das classes populares que se espremiam diariamente na segunda classe do trem suburbano nos anos 1920: os imigrantes pobres, portugueses e outros, os descendentes de escravos negros, crioulas e mulatas em seus uniformes de domésticas...

Habitualmente não viajo em segunda classe; mas tenho viajado, não só, às vezes, por necessidade, como também, em certas outras por puro prazer.

Viajo quase sempre de primeira classe e isso, desde muito
tempo.

Quando há quase vinte anos, fui morar nos subúrbios, o trem me irritava. A presunção, o pedantismo, a arrogância e o desdém em que olhavam as minhas roupas desfiadas e verdoengas, sacudiam- me os nervos e davam- me ânimos de revolta. Hoje, porém, não me causa senão riso a importância dos magnatas suburbanos. Esses burocratas faustosos, esses escrivães, esses doutores de secretaria, sei bem como são títeres de politicões e politiquinhos. (...)

Pela manhã, aí pelas nove e meia até às dez e meia, o carro de primeira é banalizado por esses cupins de secretarias e escritórios.

(...) Após esse "horário de expediente", a viagem de trem se tornava "mais pitoresca" porque era chegada "a hora dos namoros ferroviários":

p. 93

Nessas horas, o trem não cheira mais a política, nem a aumento de vencimentos, nem a coisas burocráticas. O trem tem o fartum do cinematógrafo. É Gaumont para aqui, é Nordisk, para lá; é Chico Bóia; é Theda Bara ­ que mais sei eu, meu Deus ! (...)

Os vestuários, com raras exceções, são exageradíssimos. Botafogo e Petrópolis exageram Paris; e o subúrbio exagera aqueles dois centros de elegâncias.

   

Fonte

Entre a Vila Quilombo e a Avenida Central: a dupla exterioridade em Lima Barreto.

Celi Silva Gomes de Freitas.

Dissertação apresentada ao Curso de Pós Graduação em História Política, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como requisito para obtenção do Grau de Mestre.

Rio de Janeiro, Dezembro de 2002.

Ficha bibliográfica

Foram fichados apenas trechos relacionados às origens e momentos da formação dos "subúrbios da Central", sem qualquer pretensão de reproduzir ou resumir a tese da autora.

Por isso, as omissões são indicadas (...) apenas no interior dos trechos fichados de cada página.

Para a leitura completa e consulta às fontes das informações da autora, nada substitui o texto original da dissertação.

     

Estrada de Ferro Central do Brasil

Guia Geral das Estradas de Ferro e Empresas de Transporte com elas articuladas
Nomenclatura, posição, altitude, data de inauguração, regime de funcionamento de Estações, Portos e Agências (1960)

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Bibliografia

• A Gretoeste: a história da rede ferroviária GWBR - 25 Abr. 2016

• Índice das revistas Centro-Oeste (1984-1995) - 13 Set. 2015

• Tudo é passageiro - 16 Jul. 2015

• The tramways of Brazil - 22 Mar. 2015

• História do transporte urbano no Brasil - 19 Mar. 2015

• Regulamento de Circulação de Trens da CPEF (1951) - 14 Jan. 2015

• Batalhão Mauá: uma história de grandes feitos - 1º Dez. 2014

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