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Pois deu-se que, numa emissora de Belo Horizonte, o chefe de reportagem
pautou um "foca" — jornalista novato, recém-formado — para fazer
um "o povo fala", sobre o gosto do mineiro do interior pelo trem.
Um grande "passeio", nas pequenas cidades, era ir assistir à chegada
do trem na estação (Milton Nascimento, não por acaso um mineiro,
conta bem o clima, na composição "Três Pontas").
E lá se foi nosso foca, acompanhado de camera-man e demais membros
da equipe de "externa" — com a volumosa traquitana que era, então,
o equipamento de reportagem — fazer flagrantes e reportagens da
chegada do trem a uma cidadezinha não muito distante da capital.
Nervoso, pela inexperiência — e, por isso mesmo, consciente da
enorme importância de sua matéria para o progresso do telejornalismo
pátrio —, o aprendiz só conseguiu bolar duas perguntas, de santa
ingenuidade:
A primeira — "O sr. (ou srª) gosta de vir à estação pra ver o trem?"
—, recebia resposta positiva unânime, variando apenas nos complementos:
— Sim! Venho sempre que posso.
— Adoro! Não perco um.
— É nossa maior diversão por aqui, sô!
A criatividade ficava mesmo para a segunda pergunta:
— E o sr. (ou srª) gosta mais quando o trem entra, ou quando
o trem sai?
Sossegue, leitor amigo. Naquele tempo, o repórter era ingênuo,
e os entrevistados também. Uma normalista viçosa, por exemplo, declarou
com entusiasmo que gostava mais quando o trem entrava, querendo
com isso — decerto — dizer que preferia assistir à chegada do trem.
Já um senhor empertigado não titubeou: preferia quando o trem
saía.
E assim prosseguiu o repórter, cada vez mais seguro, até que topou
com idosa senhora — cabelos de neve e rugas inúmeras — que, piscando
o olho, inovou:
— Ah, meu filho, eu gosto mesmo é da manobra!...
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