A unificação das bitolas ferroviárias (IV):
O caso das ferrovias do Japão
Délio Araújo — Centro-Oeste nº 76 (1º-Mar-1993)
A 1ª ferrovia japonesa foi inaugurada 18 anos depois da iniciativa
pioneira do Barão de Mauá no Brasil. Em 1872, foi
aberto ao tráfego o primeiro trecho ferroviário no
país do Sol Nascente.
Ligava Shimbashi — hoje estação a 1,9 km da estação
central de Tókio — a Yokohama, cidade a 27 km de Shimbashi,
e hoje o maior porto e 2ª maior cidade do Japão.
Segundo os horários de Maio/1992, esse trecho original hoje
é percorrido, nos dias úteis (segunda a sexta-feira),
por quase 500 trens diários, entre suburbanos, passageiros
de longa distância, passageiros de média distância,
cargueiros e trens de containers.
No entanto, a rede ferroviária japonesa não teve
bitola uniforme desde o início. Até o início
da primeira década deste século, predominavam as bitolas
de 1,067 m — na prática, é bitola "métrica"
—, de 0,75 m, de 1,35 m, e uma ou outra linha de 1,435 m.
O estadista e astuto diplomata Takashi Hara, logo no limiar do
corrente século, percebeu o problema da diversidade das bitolas
para a economia japonesa como um todo.
A uniformização, segundo Hara, deveria dar-se de
imediato, pois seria um passo indispensável para a integração
geral do mercado interno, dos portos, e do fluxo — já então
relevante — de comércio exterior.
Por outro lado, havia um leque de problemas a serem resolvidos:
(1) A uniformização devia ser efetuada com rapidez;
(2) Os custos e exigências de capital deveriam ser minimizados;
(3) As bitolinhas deveriam ser incluídas no programa de unificação;
(4) A bitola a ser escolhida como padrão deveria atender
às exigências do transporte militar.
Takashi Hara teve que acautelar-se contra o enorme poder político
do Exército Imperial japonês. Os chefes militares preferiam
uma bitola um tanto larga, levados pela experiência das guerras
contra a China e a Rússia. Ele argumentou que o Japão
era um arquipélago; daí, o mais importante seria dispor
de uma esquadra potente e rápida, aliada a bases navais estratégicas.
Aceitos estes argumentos, os militares aceitaram, em conseqüência,
os argumentos de ordem econômica:
— Uma bitola estreita poderia ser construída com maior rapidez;
com menos recursos financeiros; com facilidade de alargamento dos
importantes trechos em bitolinhas; e com elevada facilidade de estreitamento
dos trechos de bitolas mais largas.
Assim, adotou-se o que seria um meio-termo: — A bitola de 1,067
metro.
E por quê não a bitola exata de 1,000 metro, ou "métrica"?
Por influência do sistema inglês de medidas, seguido
pela Inglaterra e Estados Unidos, países então de
enorme influência tecnológica sobre o Japão.
Em poucos anos, as ferrovias japonesas estavam unificadas na bitola
de 1,067 m — da mais setentrional das 4 ilhas maiores do arquipélago,
até à mais meridional.
O Japão é formado por 3.400 ilhas, com área
total de 377 mil km2. De todas elas, 4 são importantes para
o assunto.
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Ao sul, a ilha de Kyushu abriga as cidades de Nagasaki e Harata
— esta última, ponto terminal sul do Trem Bala.
-
Segue-se Honshu — a principal das 4 grandes ilhas —, com Tóquio,
Osaka, Nagoya e outras metrópoles.
-
Depois, Shikoku — abaixo da anterior —, com cidades importantes,
como Takamatsu, Tadotsu e Uwajima.
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Ao norte, a ilha de Hokkaido, cuja cidade principal é
Sapporo.
É nesta ordem, de sul para norte, que são publicados
os horários das ferrovias japonesas.
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A unificação em 1,067 metro não trouxe problemas
para o Japão.
Hoje, há outras bitolas — especialmente em linhas de bondes,
algumas de metrô e ferrovias urbanas. P. ex., das 10 linhas
de metrô de Tóquio, 6 eram ou são de 1,067 m:
— As linhas Hibiya, Tozai, Chyoda, Yurakucho, Hanzomon e Mita. São
tão rápidas e tão eficientes como outras com
bitolas mais largas.
A bitola de 1,067 m é, pois, altamente satisfatória,
sob os pontos de vista tecnológico e econômico-financeiro.
Até a década de 50, predominava no Japão a
tração a vapor. Daí para frente, passaram a
predominar a tração elétrica e a diesel-elétrica.
Veja, nos Quadros I e II — se a CBTU, a RFFSA ou a Fepasa tivessem
o desempenho desses horários, apresentados como exemplos
para nossa bitola métrica.
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Quadro I
Sapporo-Asahikawa
Trens automotores diesel
Em 1992 os trens circulavam a cada 30 minutos |
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Km
|
Cidade
|
1969
|
Maio/1992
|
|
0,0
|
Sapporo |
9h20
|
7h50
|
8h00
|
8h30
|
|
40,6
|
Iwamizawa |
9h54
|
8h24
|
8h25
|
8h57
|
|
56,8
|
Bibai |
-
|
8h39
|
-
|
9h07
|
|
75,3
|
Simagawa |
-
|
8h54
|
-
|
9h19
|
|
82,9
|
Takikawa |
10h28
|
9h04
|
8h48
|
9h25
|
|
106,3
|
Fikagawa |
10h46
|
9h22
|
9h02
|
9h40
|
|
136,2
|
Asahikawa |
11h16
|
9h53
|
9h20
|
10h00
|
Velocidade média
em km/h |
70,3 |
66,3
|
102,0
|
90,0
|
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Quadro II
Osaka-Toyama
Trens-Unidade Elétricos |
|
Km
|
Cidade
|
1969
|
Maio/1992
|
|
0,0
|
Osaka |
9h45
|
7h05
|
|
3,8
|
Shin Osaka |
9h50
|
7h09
|
|
42,8
|
Kyoto |
10h19
|
7h33
|
|
190,9
|
Fukuy |
12h16
|
8h57
|
|
267,6
|
Kamazawa |
13h14
|
9h43
|
|
308,3
|
Takaoka |
13h45
|
10h08
|
|
327,1
|
Toyama |
14h00
|
10h20
|
Velocidade média
em km/h |
76,9
|
100,6
|
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Em 1964, foi inaugurada a primeira linha do Trem Bala, de Tóquio
a Osaka, na bitola de 1,435 m. Os japoneses, na época, não
acreditavam que a bitola de 1,067 m pudesse correr acima de uns
110 a 120 km/h.
Agora, já se pensa em correr 160 km/h, depois que o Estado
australiano de Queensland e a África do Sul planejaram correr
a 160 km/h em 1,067 m.
Mais ainda: — A bitola de 1,067 m correrá a 200 km/h por
volta de 1996, e para 1998 o projeto japonês é correr
a 250 km/h!
Portanto, fica a discussão sobre se vale a pena expandir
o Trem Bala (bitola 1,435 m), ou deixar certas linhas, que seriam
dele, para a bitola 1,067 m.
Note que o Trem Bala circula só em linhas exclusivas, construídas
especialmente para ele, com raios de curva extremamente abertos
— linhas percorridas por um único tipo de trem, e só
para passageiros —, sem cruzamentos, sem passagens de nível,
e quase toda extensão em viadutos ou túneis!
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No Quadro III, veja o desempenho do Trem Bala (1,435 m) comparado
ao dos trens comuns — em trechos de Tóquio onde as condições
de curva são as mesmas da rede de 1,067 m, por não
ter sido possível construir uma linha muito reta e expressa
para o Trem Bala.
Como foi que os japoneses aprenderam que a bitola estreita podia
correr a 110 ou 120 km/h?
No período entre a I e a II Guerra Mundial, progressivamente
foi o Japão envolvendo o Oriente sob o domínio, ao
menos econômico, de sua política. Depois, veio a ocupação
militar.
Os holandeses, que dominavam a atual Indonésia, haviam introduzido
o famoso serviço de passageiros entre Jacarta e Surabaia.
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Quadro III
Comparação de bitolas com curvas semelhantes |
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Percurso
|
Km
|
Tempo em minutos
|
Trem Bala
(1,435 m)
|
Linha comum
(1,067 m)
|
| Tóquio - Yokohama |
28,8
|
16
|
20
|
| Tóquio - Ueno |
3,6
|
4
|
4
|
| Ueno - Omiya |
26,7
|
20
|
22
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As 4-6-2 desta linha, conhecidas como "as
Pacific de Java", iam a 110, e mesmo a 120 km/h!
Com a ocupação japonesa da Indonésia, durante a
II Guerra Mundial, os vivos nipônicos aprenderam a lição
— que nós, ainda sequer conhecemos.
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