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Agenda do Samba e Choro
Foto do Trem Farroupilha puxado por uma locomotiva Garrat
Foto: Preserfe, sem data: Noturno tracionado pela Garrat 909

  
  

Ferreoblog

   

Viação Férrea do Rio Grande do Sul
Os carros de aço do trem Farroupilha

João Paulo M. Camargo — Centro-Oeste DC-8 — 10-dez-1990

Foi em 1929 que a Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS) fechou contrato de compra com a firma americana Pullman Standard Car, resultado de uma segunda licitação pública feita para aquisição de carros construídos inteiramente de aço. Na primeira licitação, não houve nenhum inscrito, obrigando a diretoria a realizar várias modificações no edital.

O lote formado por 21 carros veio a bordo do vapor Beljeanne e foi desembarcado no porto do Rio Grande entre os dias 3, 4 e 5 de dezembro de 1931, com as seguintes características:

  • 6 carros correio-bagagem n° 281 a 286, tara de 27 toneladas e lotação de 16 toneladas

  • 6 carros de primeira classe n° 621 a 626, tara de 28,7 t e lotação para 40 passageiros dispostos em fileiras de assentos simples e duplos, com a particularidade de os primeiros 4 carros terem os bancos duplos inteiriços, e os outros 2 carros terem os bancos duplos repartidos

  • 5 carros dormitório n° 195 a 199, tara 31,1 t e 7 camarotes duplos

  • 4 carros restaurante n° 171 a 174, tara 30,7 t e 28 lugares

As locomotivas empregadas para puxar o Farroupilha — como ficou sendo chamado o noturno de Santa Maria a Porto Alegre — foram as recém-adquiridas Garratt n° 901 a 910, fabricadas pela Henschel sob licença da Beyer-Garratt, de rodagem 4-6-2+2-6-4.

Curioso é notar que as Garratt foram empregadas não só na VFRGS, mas em várias partes do Brasil, devido à grande aderência que possuíam, sem com isso forçar as linhas com excesso de peso localizado (peso por eixo).

A maioria esmagadora dos trechos ferroviários construídos aqui, até então, foram planejados com extrema economia de recursos técnicos (bitola, raio mínimo, rampa, tipo de trilhos e obras de arte), visando tão somente o material de tração empregado na época da construção. Possantes locomotivas Pacific, quando aqui chegaram, ficaram limitadas às velocidades de 30, às vezes 40 km/h; locomotivas como as Hudson (4-6-4) e Niagara (4-8-4) sequer foram importadas, devido ao seu grande peso, embora fossem excelentes para tração.

Foi célebre o caso das locomotivas Berkshire (2-8-4) especialmente projetadas para "as condições brasileiras", importadas de um consórcio francês — Gelsa — pelo governo federal, no início dos anos 50. Bastou que as primeiras unidades saíssem montadas das nossas oficinas, para abrirem a linha na primeira curva. A maioria destas locomotivas sequer chegou a ser montada, sendo vendidas como sucata. Tem-se notícia, inclusive, de que exista uma em Roboré, Bolívia (Red Oriental), oriunda da Noroeste do Brasil.

Não é de estranhar, portanto, o relato tão pessimista do Inspetor Geral da VFRGS da época, sobre o estado das linhas e os resultados "positivos" dos primeiros testes das Garratt — que foram inventadas para aumentar a capacidade de tração de linhas consideradas secundárias e serranas, tendo sido aqui empregadas no tronco principal da rede gaúcha, já praticamente consolidada como um dos sistemas ferroviários mais importantes do País, construída com traçado e superestrutura inadequados.

Com partidas simultâneas de Porto Alegre e Santa Maria, diariamente, às 21:00h, teve início em janeiro de 1932, no Estado do Rio Grande do Sul, o serviço de trens de passageiros feito com carros de aço — o terceiro no Brasil e o primeiro na nossa bitola métrica, com estas características.

A composição era formada por 1 carro correio-bagagem, 2 carros de primeira classe, 1 restaurante, mais 1 de primeira e, por fim, 2 carros dormitório. Os carros de primeira com assento duplo inteiriço (n° 621 a 624, foto à direita) eram, geralmente, usados pelos passageiros em trânsito durante o percurso, sendo engatados logo atrás dos carros correio-bagagem. Os outros, com assento duplo repartido, eram usados pelos passageiros do percurso total. Sendo uma viagem noturna de praticamente 12 horas, podiam repousar sem incomodar o passageiro vizinho. Estes carros (n° 625 e 626) eram engatados entre o carro restaurante e os dormitórios.

Mais tarde, o Farroupilha começou a puxar também os carros dos trens que faziam São Paulo — Porto Alegre (4 noites e 5 dias de viagem!), em 3 frequências semanais alternadas, mas não deu muito certo, pois os trens vindos de São Paulo chegavam em Santa Maria com muito atraso. Isso obrigou a direção da VFRGS a colocar os carros de São Paulo no horário diurno de Santa Maria a Porto Alegre, que era um trem parador, e com isso o Farroupilha tornou-se novamente um trem uniforme.

Nos anos 40, foram acrescidos os carros de segunda classe, de aço — já então, fabricados no Rio Grande do Sul —, e continuou servindo com galhardia, por muitos anos, até a chegada dos trens húngaros, em 1974. Então, foi passado para segundo plano e, logo depois, encostados, restando apenas alguns carros, servindo de alojamento, e muitas lembranças.

As cores da pintura externa eram verde-pullman (verde oliva amarronzado), com inscrições e filetes em branco.

Bibliografia:

  • Relatórios VFRGS de 1929, 1930, 1931, 1932
  • Car Builders Cyclopaedia, vários anos
   
  

  
Agenda do Samba e Choro
Desembarque dos vagões do Trem Farroupilha no porto do Rio Grande
Desembarque dos carros vindos no vapor Beljeanne, no porto do Rio Grande.
Os carros de aço do Trem Farroupilha
Carros Pullman de 1931 | Carros VFRGS de 1942
Primeira Classe | Interior | 621 a 626 | 627 a 635 | P-210
Dormitório | 191 a 194 | 195 a 199
Restaurante | 171 a 174 | 175 a 176 | R-202
Correio-Bagagem | 281 a 286 | BC-201
Farol farroupilha
VFRGS : SR-6 RFFSA : ALL
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1907: EF Porto Alegre a Nova Hamburgo | EF Porto Alegre a Uruguaiana | EF Rio Grande a Bagé | EF Santa Maria ao Uruguai
Mapas: 1984 | 1970 | 1965 | 1954 | 1950 | 1898
 
 
   
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