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Agenda do Samba e Choro
Foto da plaqueta de sinalização na porta do vagão do Trem de Prata
  

  
  
   

A volta do Trem de Prata
Viagem ferroviária
ganha status 5 estrelas

Nos 44 anos dos carros Budd da Central, a nova versão do tradicional
Trem Santa Cruz volta na rota Rio–São Paulo

Texto e Fotos: José E. Buzelin — Centro-Oeste nº 93 (1º-Fev-1995)

Dia 8 de Dezembro de 1994, pouco mais de 21h — Retorna à operação uma das linhas de passageiros mais tradicionais do Brasil — a Rio de Janeiro – São Paulo.

Por décadas, o Ramal de São Paulo foi o leito dos mais famosos trens da Central: as litorinas Fiat, os carros ACF do Cruzeiro do Sul, os carros Budd do Santa Cruz, as automotrizes Budd e o Trem Húngaro com seus carros Ganz-Mavag, que entre os usuários cotidianos transportaram personalidades e autoridades.

Destes trens, o Santa Cruz marcou época. Circulou diariamente de 1950 a 1990, quando foi suspenso ao completar 40 anos de viagens bem-sucedidas. Em seu lugar, ficou a expectativa do retorno pelas mãos da iniciativa privada, como de fato ocorre agora, 4 anos depois.

Em 93/Ago/17, a RFFSA lançou o edital nº 33/93, abrindo a concorrência para exploração de viagens noturnas turísticas no Ramal de São Paulo — primeiro passo para o retorno do Santa Cruz, com os mesmos carros, porém sob nova identidade.

Até o final de 1993, habilitou-se para o novo serviço o chamado "Consórcio Trem de Prata", formado pelas empresas Portobello Hotéis e Útil — União Transportes Interestaduais de Luxo (operadora da linha rodoviária Belo Horizonte – Rio, com sede em Juiz de Fora, MG).

Ficou estabelecido que a operação e tração do "novo" trem ficaria sob a responsabilidade da Rede, ao passo que a reforma dos carros e adequação dos terminais (estações) ficaria por conta do consórcio, que faria um investimento da ordem de US$ 4 milhões para tornar realidade o "Trem de Prata" — conforme passaria a ser denominado oficialmente.

Inauguração marcada para 94/Março, pelo menos 2 fatores impediriam sua concretização dentro do prazo: a reforma dos carros pela CCC (Cia. Comércio e Construção, Deodoro, RJ), que não estava concluída; e a queda de uma ponte próxima a São José dos Campos, SP, que interrompeu o tráfego no Ramal de São Paulo durante 6 meses.

Notícias e boatos desencontrados fizeram o primeiro ativo de marketing do trem. Até a inauguração oficial, chegou-se a acreditar, mesmo, que o evento não ocorresse.

Mas em tempo veio a confirmação — em Nov/18 o trem Rio – São Paulo voltaria a circular.

Esta data, na verdade, significou a inauguração simbólica do trem, sem a esperada viagem.

O lançamento, sob os olhares atentos de autoridades e do público aficcionado, foi feito às 11h, na gare da estação Barão de Mauá (de onde passaria a sair o trem), com a divulgação definitiva da primeira viagem: — Dez/08, às 20h30.

A viagem

A estação da antiga Leopoldina, no Rio de Janeiro, recebeu uma extensão da bitola larga (1,60 m) junto à plataforma preparada para os carros.

Desde o final da tarde, o Trem de Prata estava a postos para sua premiére.

Sob a curiosa observação dos passageiros dos trens de subúrbios da CBTU ("Flumitrens"), os reluzentes carros Budd faziam jus ao novo nome, tendo seu aço inoxidável a tonalidade de prata.

Na sala de embarque (check-in), a sofisticação do atendimento Vip. Enquanto aguardava-se o embarque, um cocktail era oferecido aos presentes.

O acesso à plataforma não estava rigorosamente restrito. Entre colegas da RFFSA, da ABPF/RJ e amigos, foi possível passar em revista a composição e constatar algo interessante: — Faltando minutos para a partida, funcionários da CCC ainda trabalhavam em alguns carros.

Entre retalhos de madeira, carpete, chapas de aço e até mesmo vasos de toilette, o piso da plataforma tomava aspecto de um verdadeiro estaleiro onde, às pressas, eram feitos os acertos de última hora.

Mesmo correndo contra o tempo, o trem sairia com cerca de 1h15m de atraso.

Para identificação, foi pintada a inscrição "Trem de Prata" ao centro e sem espaçamento — ladeada por logomarcas RFFSA e as inscrições de cabeçeira "RFFSA SR-3" — todas no "plate-board-name" superior — a famosa área entre o teto e as janelas.

É o terceiro padrão de inscrições, após "CENTRAL" e "RFFSA".

Para identificação dos carros-cabine junto aos passageiros, ao invés de letras eles ganharam nomes — Guarujá, Paraty e Angra dos Reis estavam efetivamente concluídos. O quarto carro — Itatiaia — foi incorporado à composição, mas viajou vazio, com operários trabalhando em sua finalização.

Os demais, apesar da formação do trem, seguiram viagem ainda em fase de acabamento.

Por tudo isso, somente às 21h40 soou o apito da U-20C "Rio de Janeiro" para o reinício da jornada dos quase cinquentenários carros Budd.

O trem

Modificações foram feitas nos carros, mas sem alterações extremas em suas características.

Externamente foram conservados, salvo o detalhe das tubulações instaladas no teto (por fora) para os cabos de energia que vêm do carro-bagagem RPO — onde se instalou um grupo gerador independente, semelhante ao sistema Hep (head-end-power) adotado nos atuais trens americanos da Amtrak.

  
Trem Santa Cruz Trem de Prata
Inauguração 1950/Mar/29 1994/Dez/08
Formação 1 Carro-bagagem
1 Carro-correio
1 Carro-cabine individual
3 Carros-cabine-dupla
1 Carro-restaurante
3 Carros-cabine-dupla
1 Carro-salão
1 Carro-bagagem (HEP)
1 Carro-restaurante (*)
1 Carro-bar (*)
4 Carros-cabine-dupla (*)
1 Carro-bagagem
Terminal Rio Estação D. Pedro II (EFCB) Estação Barão de Mauá (EFL)
Terminal SP Estação da Luz (EFSJ) Terminal Barra Funda (EFSJ)
Frequência Diária Alternada

Estes cabos foram muito criticados, pois são visíveis na passagem de um carro para outro, lembrando o sistema de alimentação dos carros de metrô de Belo Horizonte e São Paulo, inclusive dificultando as manobras, por serem de rosca.

As modificações atingiram os carros cabine-dormitório DI-6179-6 (ex-DM-302, ex-DC-512); DI-6186-9 (ex-DM-309, ex-DC-519); DI-6195-8 (ex-DM-318, ex-DC-528); e DI-6196-6 (ex-DM-319, ex-DC-529).

Das 12 cabines originais, 2 foram transformadas em "suítes", que consumiram o espaço equivalente a 3 cabines originais; 6 foram mantidas como "duplas"; e 1 transformada em individual.

O carro-bar foi feito a partir do carro-restaurante RI-6807-3 (ex-RT-103, ex-R-503). A cozinha foi conservada e modernizada, mas o hall original ganhou nova conformação. Mesas de granito esverdeado e poltronas tipo sofá compõem o novo ambiente, que conta também com uma TV de 28 polegadas com vídeo-disk-laser. O balcão do bar antecede o acesso à cozinha. Tudo ao estilo "pub bar".

O carro-restaurante foi feito a partir do carro-poltrona 1ª classe FI-6399-3 (ex-B-706, ex-P-516), instalando-se mesas para 2 e 4 pessoas, além do buffet para o self-service do café-da-manhã.

A nova decoração destes carros contrasta com o "streamline style", mas o bom-gosto e o aconchego compensam satisfatoriamente.

Resta dizer sobre os carros-bagagem RPO nº BI-6078-1 (ex-F-206, ex-B-506) e BI-6079-0 (ex-F-207, ex-B-507).

Um deles leva o equipamento Hep, junto à locomotiva, e o outro segue na cauda. Esta foi a solução para evitar manobras de reversão. O trem se transformou numa espécie de pull-pull-train.

O bastidor de equipamentos — embaixo dos carros — foi severamente alterado, sendo a maioria retirados como obsoletos.

Isto parece ter alterado o centro de gravidade dos carros. Infelizmente, o velho balanço já não é mais o mesmo — a instabilidade faz presença.

Além disso, alguns novos equipamentos de apoio à refrigeração — embaixo do assoalho — funcionam ininterruptamente, com um desconfortável zunido por todo o trajeto.

Conclusão

As 9h de viagem foram cumpridas, encerrando a jornada no terminal especialmente construído para o Trem de Prata, no pátio de conserva dos carros em Barra Funda.

Por mais 2h30m o passageiro pode permanecer no trem para tomar tranquilamente o breakfast, um banho e se aprontar para deixar o "hotel sobre trilhos".

A seletividade dos passageiros — que já era notória no Santa Cruz — foi drasticamente reforçada. É agora um trem classe "A" para quem pode pagar R$ 90 por pessoa:

  • Cabine singela — R$ 135
  • Cabine dupla — R$ 180
    R$ 135 para uso individual
  • Suíte — R$ 270
    R$ 200 para uso individual
  • Criança até 3 anos não paga.
    Até 12 anos — R$ 67 como segunda pessoa;
    ou — R$ 45 como terceira pessoa.
  • Jantar e café-da-manhã incluídos
  • Saídas do Rio: 20h30 aos Domingos, Terças e Quintas;
    — De São Paulo: Segundas, Quartas e Sextas
  • Informações: 021-294-7975
   

  
  
  
Locomotiva U20C "Juiz de Fora" com o Trem de Prata na estação Barão de Mauá, no Rio de Janeiro
A U20C "Juiz de Fora" após a segunda viagem, em Barão de Mauá. Note, acima dela, a "sanfona" do carro
Trens Santa Cruz / Vera Cruz / Trem de Prata
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